Dps de um bom tempo sem postar no blog eu voltei para postar o resultado da votação ( postar os capítulos do livro vencedor ) q na vdd é Querido Jonh . E tb estou aqui pra dizer pq eu demorei pra postar : Estava em processo de mudança e sem o pc então ficou difícil .....
Eu começarei as aulas nessa Segunda então vai ficar mais difícil de postar queria contratar umas 2 ou 3 pessoas para ser CDC do blog então que quiser ser coloca o nome e e-mail nos comentários ... Tb queria dizer q acho que irei postar de 2 em 2 oss capítulos do livro pq com as aulas chegando vai ser mt corrido e não vou ter mt tempo pra postar , bom agr fiquem com o primeiro e o segundo capitulo do livro , tchau !
Capítulo 1 > (Querido, John)
Wilmington, 2000
Meu nome é John Tyree. Eu nasci em 1977, e cresci em Wilmington, Carolina do Norte, uma cidade
que orgulhosamente ostenta o maior porto do estado assim como uma longa e vibrante história, mas
agora ela me parece mais uma cidade que aconteceu por acidente.
Claro, o tempo era ótimo e as praias eram perfeitas, mas a cidade não estava pronta para a onda de
de ianques aposentados do norte que queriam algum lugar barato para passar seus anos de ouro. A
cidade fica localizada em uma ponta de terra relativamente pequena, cercada pelo Rio Cape Fear de
um lado e o oceano do outro. A rodovia 17-que leva a praia Myrtle e a charleston-divide a cidade e
serve como sua estrada principal. Quando eu era criança, meu pai e eu podíamos dirigir da zona
histórica perto do Rio Cape Fear até a praia Wrightsville em dez minutos, mas tantos semáforos e
shopping centers têm sido adicionados que agora pode levar uma hora, especialmente nos finais de
semana, quando os turistas vêm de montes. A praia de Wrightsville, localizada em uma ilha logo
além da costa, está no ponto mais norte de Wilmington e é de longe uma das praias mais populares
do estado. As casas ao longo das dunas são ridiculamente caras, e a maioria delas são alugadas por
todo o verão. Os Outer Banks devem ter um apelo mais romântico por causa do isolamento deles e
os cavalos selvagens e aquele vôo pelo qual Orville e Wilbur são famosos, mas me deixe lhe
dizer uma coisa, a maioria das pessoas que vão à praia nas férias se sentem mais em casa quando
podem achar um McDonald's ou um Burger King por perto, para o caso dos pequenos não gostarem
muito da comida local, e querem mais do que duas opções quanto a atividades noturnas.
Como todas as cidades, Wilmington é rica em alguns lugares e pobre em outros, e desde que meu
pai conseguiu um dos empregos mais estáveis e sólidos do planeta-ele dirigia uma rota de entrega
de correspondência para o correio-nós ficamos bem. Não ótimos, mas bem. Nós não éramos ricos,
mas vivíamos perto o bastante da área rica da cidade para eu frequentar uma das melhores escolas
de lá. Embora, diferente das casas dos meus amigos, a nossa casa fosse velha e pequena; parte da
varanda tinha começado a vergar, mas o jardim era o que salvava a casa. Havia um grande carvalho
no quintal, e quando eu tinha oito anos de idade construí uma casa na árvore com pedaços de
madeira que eu peguei de uma construção. Meu pai não me ajudou com o projeto (se ele martelasse
uma unha, podia ser chamado honestamente de um acidente); foi no mesmo verão que eu ensinei a
mim mesmo como surfar. Acho que eu deveria ter me dado conta aí do quanto meu pai e eu éramos
diferentes, mas isso só mostra o quão pouco você sabe sobre a vida quando se é uma criança.
Meu pai e eu éramos tão diferentes um do outro quanto duas pessoas podem possivelmente ser. Ele
era passivo e introspectivo, eu estava sempre me movimentando e odiava ficar sozinho; ele dava
grande valor a educação, escola para mim era como um clube social com esportes inseridos. Ele
tinha uma má postura e tendia a arrastar os pés quando andava; eu saltava aqui e ali, pedindo a ele
pra marcar quanto tempo eu levava pra correr até o final do quarteirão e voltar. Eu era mais alto que
ele quando estava na oitava série e podia ganhar dele na queda de braço um ano depois. Nossas
características físicas eram completamente diferentes também. Enquanto ele tinha cabelos cor de
areia, olhos cor de avelã e sardas, eu tinha olhos e cabelos castanhos e minha pele azeitonada
escurecia para um forte bronzeado em maio. Nossas diferenças foram tomadas pelos nossos
vizinhos como estranhas, eu acho, considerando que ele tinha me criado sozinho. Quando fiquei
mais velho, algumas vezes eu ouvia eles cochichando sobre o fato de que minha mãe tinha fugido
quando eu tinha menos de um ano. Embora mais tarde eu tenha suspeitado que minha mãe tivesse
encontrado outra pessoa, meu pai nunca comfirmou isso. Tudo o que ele tinha dito era que ela tinha
se dado conta que tinha cometido um erro casando tão jovem, e que ela não estava pronta para ser
uma mãe. Ele nem tratava ela com desdém, nem a elogiava, mas se certificou que eu a incluísse nas
minhas orações, não importando onde ela estivesse ou o que ela havia feito.
"Você me lembra ela," ele tinha dito algumas vezes.
Até hoje, eu nunca falei uma única palavra com ela, nem tenho nenhum desejo de falar.
Eu acho que meu pai era feliz. Eu coloco assim porque ele raramente mostrava suas emoções.
Abraços e beijos eram uma raridade pra mim quando eu estava crescendo, e quando aconteciam,
eles geralmente pareciam sem vida, algo que ele tinha feito porque sentiu que tinha que fazer, não
porque ele quisesse fazer. Eu sei que ele me amava pelo modo que ele se dedicou a cuidar de mim,
mas ele tinha 43 anos quando me teve, e uma parte de mim acha que meu pai se daria melhor como
um monge do que como um pai. Ele era o homem mais quieto que eu já conheci. Fazia poucas
perguntas sobre o que estava acontecendo na minha vida, e do mesmo jeito que raramente ficava
com raiva, ele raramente brincava. Vivia para a rotina. Fazia ovos mexidos, torradas e bacon para
mim todas as manhãs e ouvia eu falar sobre a escola, no jantar que ele também tinha nos preparado.
Ele marcava visitas ao dentista com dois meses de antecedência, pagava suas contas no sábado de
manhã, lavava a roupa no domingo à tarde e saía de casa todo dia exatamente às 7:35 da manhã. Ele
era socialmente estranho e passava longas horas sozinho todos os dias, deixando pacotes e maços de
cartas nas caixas de correio ao longo da sua rota. Ele não namorava, nem passava noites de fim de
semana jogando poker com seus colegas; o telefone podia ficar em silêncio por semanas. Quando
tocava, ou era engano ou telemarketing. Eu sei o quanto deve ter sido difícil pra ele me criar
sozinho, mas ele nunca reclamava, nem mesmo quando eu o desapontava.
Eu passava a maioria das minhas tardes sozinho. Com as obrigações do dia finalmente finalizadas,
meu pai ia pra sua toca ficar com as suas moedas. Essa era a maior paixão da vida dele. Ele ficava
muito contente quando sentado na sua toca, estudando uma carta de um negociador de moedas
apelidado de Greysheet e tentando descobrir qual era a próxima moeda que ele devia adicionar a sua
coleção. O herói do meu avô era um homem chamado Louis Eliasberg, um financiador de
Baltimore que é a única pessoa a ter reunido uma coleção completa das moedas dos Estados
Unidos, incluindo várias datas e marcas da Casa da Moeda. Sua coleção se igualava, se não
superasse, a coleçao do Smithsonian, e depois da morte da minha avó em 1951, meu avô ficou
obcecado com a idéia de construir uma coleção com o filho. Durante os verões, meu avô e meu pai
viajavam de trem pra várias Casas da Moeda para coletar moedas de primeira mão ou visitavam
vários eventos de moedas no sudeste. Logo, meu avô e meu pai estabeleceram relações com
negociadores de moedas por todo o país, e meu avô gastou uma fortuna negociando e melhorando a
coleção todos esses anos. Mas diferente de Eliasberg, contudo, meu avô não era rico-ele tinha um
armazém em Burgaw que faliu quando a Piggly Wiggly abriu suas portas por toda a cidade-e
nunca teve chance de alcançar a coleção do Eliasberg. Mesmo assim, todo dólar extra se
transformava em mais moedas. Meu avô vestiu a mesma jaqueta por trinta anos, dirigiu o mesmo
carro a vida toda, e eu tenho certeza que meu pai foi trabalhar para o correio ao invés de ir para a
faculdade porque não sobrou um centavo para pagar qualquer coisa além do Ensino Médio. Ele era
um cara estranho, com certeza, assim como meu pai. Tal pai, tal filho, como diz o velho ditado.
Quando o velho finalmente passou dessa pra melhor, ele especificou no testamento que a casa seria
vendiada e o dinheiro seria usado para comprar mais moedas, o que provavelmente seria o que meu
pai teria feito de qualquer forma.
Quando meu pai herdou a coleção, já era bem valiosa. Quando a inflação subiu para o telhado e o
ouro atingiu $850 a onça, valia uma pequena fortuna, mais do que o suficiente para o meu pai
econômico se aposentar algumas vezes e mais do que valeria 25 anos depois. Mas nem meu avô
nem meu pai tinham começado a colecionar pelo dinheiro; eles estavam nisso pela emoção da
caçada e pelo laço que se criou entre eles.
Tinha alguma coisa excitante em longas e duras procuras por uma moeda específica, finalmente
localizá-la, depois negociar para conseguí-la pelo preço certo. Algumas vezes eles podiam pagar por
uma moeda, outras vezes não, mas cada peça que eles adicionavam à coleção era um tesouro. Meu
pai esperava partilhar a mesma paixão comigo, incluindo o sacrifício que ela requeria. Crescendo,
eu tive que dormir com cobertores extras no inverno, e eu só comprava um único par de sapatos por
ano; nunca havia dinheiro para minhas roupas, a não ser que elas viessem do Exército da
Salvação. Meu pai nem tinha uma câmera. A única foto tirada de nós foi em um evento de
moedas em Atlanta. Um negociador tirou nossa foto enquanto nós estávamos de pé em frente a sua
barraca e depois nós enviou a foto. Por anos ela ficou empoleirada na mesa do meu pai. Na foto, o
braço do meu pai estava jogado sobre os meus ombros, e nós dois estávamos sorrindo alegremente.
Na minha mão, eu segurava um níquel búfalo 1926-D em condição de pedra preciosa, uma moeda
que meu pai tinha acabado de comprar. Estava entre os níqueis búfalos mais raros, e nós acabamos
comendo cachorro quente e feijão por um mês, visto que a moeda custou mais do que ele esperava.
Mas eu não me importava com os sacrifícios-por um tempo de qualquer forma. Quando meu pai
começou a falar comigo sobre moedas-eu devia estar na primeira ou segunda série na época-ele
falou comigo como um igual. Ter um adulto, especialmente seu pai, tratando você como um igual é
uma coisa importante para qualquer criança, e eu aproveitava a atenção absorvendo a informação.
Logo eu podia lhe dizer quantas águias duplas Saint-Gaudens foram cunhadas em 1927 comparadas
com 1924 e porque uma moeda de dez centavos Barber cunhada em Nova Orleans era dez vezes
mais valiosa do que a mesma moeda cunhada no mesmo ano na Filadélfia. Eu ainda posso, à
proposito. Ainda que, diferente do meu pai, eu comecei a parar com a minha paixão por moedas.
Era tudo sobre o que meu pai parecia ter a capacidade de falar, e depois de seis ou sete anos de
finais de semana passados com ele ao invés de com amigos, eu queria sair. Como a maioria dos
garotos, eu comecei a me importar com outras coisas: esportes, garotas, carros e música,
primeiramente, e quando fiz 14 anos, eu passava muito pouco tempo em casa. Meu ressentimento
começou a crescer também. Pouco a pouco, eu comecei a notar diferenças no modo que nós
vivíamos quando me comparava com a maioria dos meus amigos. Enquanto eles tinham dinheiro
para gastar indo ao cinema ou comprando um par de óculos estiloso, eu me achava procurando por
moedas no sofá pra comprar um hamburguer no McDOnald's. Mais do que alguns dos meus amigos
receberam carros nos seus aniversários de 16 anos; meu pai me deu um dólar prateado Morgan de
1883 cunhado em Carson City. Os rasgos do nosso sofá usado eram cobertos por um cobertor, e nós
éramos a única família que eu conheço que não tinha tv a cabo ou um forno microondas.
Quando a nossa geladeira quebrou, ele comprou uma usada que era da cor do tom mais horroroso de
verde do mundo, uma cor que não combinava com mais nada na cozinha. Eu ficava com vergonha
só de pensar em chamar meus amigos para me visitar, e culpei meu pai por isso. Eu sei que era
muito ridículo eu me sentir assim-se a falta de dinheiro me incomodava tanto, eu poderia ter
aparado gramados ou arranjado empregos estranhos, por exemplo, mas as coisas eram assim. Eu era
cego como um caracol e bobo como um camelo, mas mesmo que eu lhe dissesse que eu me
arrependo da minha imaturidade agora, eu não posso desfazer o passado.
Meu pai sentiu que alguma coisa estava mudando, mas ele estava perdido sobre o que fazer com a
gente. Ele tentou, no entanto, do único modo que ele sabia, do único modo que o pai dele sabia. Ele
falava sobre moedas-era o único assunto que ele podia discutir com facilidade-e continuou a fazer
meus cafés-da-manhã e jantares; mas o nosso estranhamento cresceu com o tempo. Ao mesmo
tempo, eu me afastei dos amigos que eu sempre conheci. Eles começaram a fazer panelinhas,
baseadas principalmente em que filmes eles iriam ver ou nas últimas camisas que eles tinham
comprado no shopping, eu percebi que estava olhando pra eles de fora. Que se danem, eu pensei.
No Ensino Médio, existe sempre um espaço pra todo mundo, eu comecei a me juntar com o tipo
errado de pessoas, pessoas que não davam a mínima pra nada, o que me deixava não dando a
mínima também. Eu comecei a cabular aulas e a fumar e fui suspenso três vezes por brigar.
Eu desisti dos esportes também. Eu tinha jogado futebol americano, basquete e praticado corrida até
o segundo ano, e embora meu pai algumas vezes perguntasse como eu tinha ido quando eu chegava
em casa, ele parecia desconfortável se eu entrasse em detalhes, visto que era óbvio que ele não sabia
nada de esportes. Ele nunca participou de um time na vida. Ele apareceu para um único jogo de
basquete durante o meu segundo ano. Sentou nas arquibancadas, um estranho cara careca vestindo
uma jaqueta de esportes usada e meias que não combinavam. Embora ele não fosse obeso, suas
calças apertavam na cintura, fazendo-o parecer como se estivesse grávido de três meses, e eu sabia
que não queria ter nada a ver com ele. Eu fiquei desconcertado com a sua aparência e depois do
jogo eu o evitei. Não sinto orgulho de mim mesmo por isso, mas era assim que eu era.
As coisas pioraram. No meu último ano, minha rebeldia atingiu um ponto alto. Minhas notas
vinham escorregando por dois anos, mais por preguiça e falta de cuidado que por inteligência (eu
gosto de pensar), e mais de uma vez meu pai me pegou entrando às escondidas em casa com bafo de
birita. Eu fui escoltado até em casa pela polícia depois de ser encontrado em uma festa onde drogas
e bebida eram evidentes, e quando meu pai me colocou de castigo, eu fiquei na casa de um amigo
por algumas semanas depois de esbravejar com ele para cuidar da sua própria vida. Ele não disse
nada quando eu voltei; ao invés disso, ovos mexidos, torradas e bacon estavam na mesa de manhã
como sempre. Eu mal passei de ano, e suspeito que a escola deixou eu me formar simplesmente
porque me queriam fora de lá. Eu sei que meu pai estava preocupado, e ele às vezes, do seu modo
tímido, abordava o assunto da universidade, mas nesse tempo, eu já tinha decidido não ir. Eu queria
um emprego, eu queria um carro, eu queria aquelas coisas materiais que eu tinha vivido dezoito
anos sem.
Eu não disse nada pra ele sobre isso de um jeito ou de outro até o verão depois da formatura, mas
quando ele se deu conta que eu não tinha nem me inscrito em alguma universidade, ele se trancou
em sua toca pelo resto da noite e não me disse nada durante o nosso ovos com bacon na manhã
seguinte. Mais tarde naquele dia, ele tentou me envolver em outra discussão sobre moedas, como se
estivesse se agarrando ao companheirismo que tinha de algum modo se perdido entre nós.
"Lembra quando nós fomos para Atlanta e foi você que achou aquele níquel de cabeça de búfalo
que nós procuramos por anos?" ele começou. "Aquele dia que tiraram a nossa foto? Eu nunca vou
esquecer o quanto você estava animado. Me lembrou do meu pai e eu."
Eu sacudi a cabeça, toda a frustração da vida com o meu pai vindo à superfície.
"Eu estou de saco cheio e cansado de ouvir sobre moedas!" Eu gritei pra ele. "Não quero nunca
mais ouvir falar sobre isso! Você devia vender essa maldita coleção e fazer outra coisa. Qualquer
coisa!"
Meu pai não disse nada, mas eu nunca esquecerei a sua expressão de dor quando ele finalmente se
virou e se arrastou de volta até sua toca. Eu tinha machucado ele, e embora tenha dito a mim mesmo
que não queria fazer isso, lá no fundo eu sabia que estava mentindo pra mim mesmo. A partir daí
meu pai raramente puxou o assunto das moedas de novo. Nem eu. Se tornou um enorme abismo
entre nós, e nos deixou sem nada a dizer um ao outro.
Alguns dias depois me dei conta de que a nossa única fotografia tinha desaparecido, como se ele
acreditasse que até mesmo a mínima lembrança de moedas me ofenderia. Naquele tempo
provavelmente me ofenderia, e mesmo eu supondo que ele tinha jogado a foto fora, essa descoberta
não me incomodou nem um pouco.
Crescendo, eu nunca considerei entrar no exército. Apesar do fato de que o leste da Carolina do
Norte é uma da áreas mais militarmente densas do país-você pode ver sete bases em algumas horas
de passeio de carro por Wilmington-eu costumava pensar que a vida militar era para perdedores.
Quem queria passar a vida recebendo ordem de um bando de homens de uniforme com crew-cut?
Eu não, e tirando os caras do ROTC, nem muitas pessoas na minha escola. Ao invés disso, muitos
que tinham sido bons alunos iam para a Universidade da Carolina do Norte ou para a North
Carolina State, enquanto as crianças que não tinham sido bons estudantes ficavam pra trás,
vagabundeando de um péssimo emprego a outro, bebendo cerveja e saindo por aí, e evitando a
qualquer custo alguma coisa que requeresse uma sombra de responsabilidade.
Eu caí na última categoria. Nos dois primeiros anos depois da formatura, eu tive uma sucessão de
empregos, trabalhando como garçom no Outback Steakhouse, recolhendo canhotos de ingressos no
cinema local, carregando e descarregando caixas na Staples, fazendo panquecas na Waffle House, e
trabalhando como caixa em alguns lugares turísticos que vendiam porcarias para as pessoas de fora
da cidade. Eu gastava cada centavo que ganhava, não tinha nenhuma ilusão sobre ascender na
escala profissional, e acabei sendo despedido de todo trabalho que eu tive. Por um tempo, eu não
me importava. Estava vivendo minha vida. Eu era profissional em surfar e dormir até tarde, e visto
que eu ainda estava vivendo em casa, nada do que eu ganhava era necessário pra coisas como
aluguel ou comida ou seguro ou preparação para o futuro. Além disso, nenhum dos meus amigos
estava melhor do que eu. Eu não me lembro de ser particularmente infeliz, mas depois de um tempo
fiquei cansado da minha vida. Não a parte do surf-em 1996, os furacões Bertha e Fran atingiram a
costa, e aquelas foram algumas das melhores ondas em anos-mas ir pro bar Leroy's depois do surf.
Eu comecei a perceber que toda noite era a mesma. Eu bebia cerveja e esbarrava com alguém que
conhecia da escola, e eles perguntavam o que eu estava fazendo e eu lhes dizia, e eles me contavam
o que estavam fazendo, e não precisava ser um gênio pra se dar conta de que os dois estavam na
estrada mais rápida pra lugar nenhum. Mesmo se eles tivessem suas próprias casas, o que eu não
tinha, eu nunca acreditei neles quando me contavam que gostavam de seus trabalhos como
cavadores de valeta ou limpadores de janela ou transportadores de Porta Potti, porque eu sabia
muito bem que nenhum desses trabalhos era o tipo de ocupação que eles cresceram sonhando em
ter. Eu posso ter sido preguiçoso na sala de aula, mas eu não era burro.
Eu fiquei com dúzias de garotas naquele período. No Leroy's sempre havia mulheres. A maioria
eram relações que eu esquecia com facilidade. Eu usei mulheres, me permiti ser usado e sempre
manti meus sentimentos pra mim mesmo. Apenas a minha relação com uma menina chamada Lucy
durou mais que alguns meses, e por um tempo antes de nós inevitavelmente nos separarmos, eu
pensei que estava apaixonado por e la. Ela era estudante na UNC Wilmington, um ano mais velha
que eu, e queria trabalhar em Nova York depois de se formar. "Eu me importo com você," ela me
disse na nossa última noite juntos, "mas você e eu queremos coisas diferentes. Você poderia fazer
muito mais com a sua vida, mas por alguma razão, está contente em simplesmente flutuar por ela."
Ela hesitou antes de continuar. "Mas mais do que isso, eu nunca sei o que você realmente sente por
mim." Eu sabia que ela estava certa. Logo depois ela foi embora em um avião sem se importar em
dizer adeus. Um ano mais tarde, depois de conseguir o número com seus pais, liguei pra ela e nos
falamos por vinte minutos.
Estava noiva de um advogado, ela me disse, e estaria casada em Junho próximo.
A ligação me afetou mais do que eu pensei que me afetaria. Veio em um dia em que eu tinha
acabado de ser demitido-de novo-fui me consolar no Leroy's, como sempre. O mesmo grupo de
perdedores estava lá, e eu de repente me dei conta de que não queria passar outra tarde sem sentido
fingindo que tudo na minha vida estava bem. Ao invés disso eu comprei um pacote de seis cervejas
e fui sentar na praia.
Era a primeira vez em anos que eu realmente pensava no que estava fazendo com a minha vida, e
me perguntei se deveria seguir o conselho do meu pai e conseguir um diploma universitário. Porém,
eu tinha ficado fora da escola por tanto tempo que a idéia me pareceu estranha e ridícula. Chame de
sorte ou má sorte, mas nessa hora dois fuzileiros navais apareceram. Jovens e em forma, eles
irradiavam fácil confiança. Se eles podiam fazer, falei pra mim mesmo, eu também podia.
Refleti sobre isso alguns dias, e no final, meu pai teve alguma coisa a ver com a minha decisão. Não
que eu tenha falado com ele sobre isso, claro-nós não estávamos nos falando à essa altura. Eu estava
indo a cozinha uma noite e o vi sentado à sua mesa, como sempre. Mas desta vez, eu realmente o
analizei. Seus cabelos eram quase inexistentes, e o pouco que restou tinha se tornado
completamente cinza acima das orelhas. Ele estava perto de se aposentar, e eu fui atingido pela
noção de que eu não tinha o direito de continuar decepcionando-o depois de tudo que ele tinha feito
por mim.
Então eu ingressei no exército. Meu primeiro pensamento foi que eu iria me juntar a Marinha, visto
que eles eram os caras com quem eu estava mais familiarizado. A praia de Wrightsville estava
sempre lotada com jarheads de Camp Lejeune ou Cherry Point, mas quando a hora chegou, eu
escolhi o exército. Me dei conta que seguraria um rifle de qualquer maneira, mas o que realmente
foi decisivo foi que o recrutador da Marinha estava em horário de almoço quando eu apareci e não
estava disponível imediatamente, enquanto o recrutador do exército-cujo escritório era do outro
lado da rua-estava. No final, a decisão pareceu mais espontânea do que planejada, mas eu assinei na
linha pontilhada pra um alistamento de quatro anos, e quando o recrutador deu palminhas nas
minhas costas enquanto eu saía porta a fora, eu me encontrei me perguntando no que eu tinha me
metido. Isso foi no final de 1997, e eu tinha 20 anos de idade.
O Boot Camp em Fort Benning foi tão horrível como eu pensei que seria. A coisa toda parecia
projetada para humilhar e fazer uma lavagem nos nossos cérebros pra seguirmos ordens sem
perguntas, não importando o quão estúpidas elas fossem, mas eu me adaptei mais rapidamente do
que muitos caras. Uma vez que eu passei por isso, escolhi a infantaria. Nós passamos os próximos
meses fazendo muitas simulações em lugares como Lousisiana e o bom e velho Fort Bragg, onde
nós basicamente aprendemos a melhor maneira de matar pessoas e quebrar coisas; e depois de um
tempo, minha unidade, como parte da Primeira Divisão de Infantaria-mais conhecida como a
Grande Vermelha-foi mandada para a Alemanha. Eu não falava uma palavra em alemão, mas não
importava, visto que todo mundo com quem eu lidava falava inglês. Foi fácil no começo, então a
vida no exército se instalou. Eu passei sete meses preguiçosos nos Balcãs-primeiro na Macedônia
em 1999, depois em Kosovo onde eu fiquei até o final da primavera de 2000. A vida no exérciot não
pagava muito, mas considerando que não havia aluguel, gastos com comida e realmente nada com o
que gastar meus salários até mesmo quando eu os recebia, eu tinha dinheiro no banco pela primeira
vez. Não muito, mas o suficiente.
Eu passei a minha primeira licença em casa completamente entediado.
A minha segunda licença eu passei em Las Vegas. Um dos meus colegas tinha crescido lá, e três de
nós ficamos na casa dos pais dele. Eu acabei com praticamente tudo que tinha economizado. Na
minha terceira licença, depois de voltar de Kosovo, eu estava desesperadamente necessitando de
uma pausa e decidi voltar pra casa, esperando que o tédio da visita fosse acalmar a minha mente.
Por causa da distância, meu pai e eu raramente falávamos no telefone, mas ele me escrevia cartas
que eram sempre seladas no primeiro dia de cada mês. Elas não eram como as que meus colegas
recebiam de suas mães, irmãs e esposas. Nada muito pessoal, nada piegas, e nunca uma palavra que
sugerisse que ele sentia a minha falta. E ele tão pouco mencionava moedas. Ao invés disso, ele
escrevia sobre mudanças na vizinhança e muito sobre o tempo; quando eu escrevi para contar a ele
sobre um fogo cruzado bem cabeludo que eu tive nos Balcãs, ele escreveu de volta pra dizer que
estava feliz que eu tinha sobrevivido, mas não disse mais nada sobre isso. Eu sabia pelo modo que
ele tinha expressado sua resposta que ele não queria ouvir sobre as coisas perigosas que eu fazia. O
fato de eu estar em perigo o aterrorizava, então eu comecei a omitir as coisas assustadoras. Ao invés
disso, eu mandava cartas sobre como o dever de guarda era, sem sombra de dúvida, o emprego mais
entediante e a única coisa excitante que acontecia comigo era tentar adivinhar quantos cigarros os
outros guardas fumariam em uma única tarde. Meu pai terminava cada carta com a promessa de que
escreveria de novo logo, e mais uma vez, o homem não me decepcionou. Ele era, eu comecei a
acreditar nisso a muito tempo, um homem muito melhor do que eu jamais serei.
Mas eu tinha crescido nos últimos três anos. Sim, eu sei, sou um clichê ambulante-entrar como um
garoto, sair como um homem e tudo isso. Mas todo mundo no exército é forçado a crescer,
especialmentte se você é da infataria como eu. Você é confiado com equipamento que custa uma
fortuna, outros põem sua confiança em você, e se você estragar alguma coisa, a penalidade é bem
mais séria do que ser mandado pra cama sem o jantar. Claro, há muita papelada e tédio, e todo
mundo fuma e não consegue completar uma frase sem xingar e têm caixas de revistas safadas
embaixo de suas camas, e você tem que responder aos caras da ROTC que acabaram de sair da
universidade que acham que brutos como eu têm o QI de um Neanderthal; mas você é forçado a
aprender a lição mais importante da vida, que é o fato de que você tem que aprender a viver com as
suas responsabilidades, e é melhor você fazer isso direito. Quando recebe uma ordem você não
pode dizer não. Não é exagero dizer que vidas estão por um fio. Uma decisão errada e o seu colega
pode morrer. É esse fato que faz o exército funcionar. É esse o grande erro que as pessoas cometem
quando se perguntam como os soldados podem colocar suas vidas em risco dia após dia ou como
eles podem lutar por algo em que não acreditam. Nem todo mundo desacredita. Eu trabalhei com
soldados de todos os lados do espectro político; encontrei alguns que odiavam o exército e outros
que queriam fazer dele uma carreira. Encontrei gênios e idiotas, mas quando tudo é dito e feito, nós
fazemos o que fazemos uns pelos outros. Por amizade. Não pelo país, não por patriotismo, não por
que somos máquinas programadas para matar, mas por causa do cara ao seu lado. Você luta pelo seu
amigo, para manter ele vivo, e ele luta por você e tudo no exército é construído sobre essa simples
premissa.
Mas como eu disse, eu tinha mudado. Entrei no exército como um fumante e quase coloquei um
pulmão pra fora no Boot Camp, mas diferente de praticamente todos da minha unidade, eu parei e
não encosto nessas coisas há mais de dois anos. Moderei minha bebederia até o ponto que uma ou
duas cervejas por semana eram suficientes, e deve fazer um mês que eu não tomo nenhuma. Meu
recorde era sem sentido. Eu fui promovido de soldado raso à cabo e depois, seis meses mais tarde, à
sargento, e descobri que tinha uma habilidade de liderar. Eu liderava homens em fogo cruzados e
meu esquadrão estava envolvido na captura de um dos criminosos de guerra mais perigosos dos
Balcãs. Meu oficial comandante me recomendou à Escola para Candidatos a Oficial (OCS), e eu
estava debatendo se iria me tornar um oficial ou não, mas isso às vezes significava um emprego de
escritório e ainda mais papelada, e eu não estava certo se queria isso. Tirando o surfe eu não tinha
feito exercício por anos antes de ingressar no serviço; na época que eu tirei minha terceira licença,
ganhei 7 quilos de músculos e acabei com os pneuzinhos da minha barriga. Passava a maior parte
do meu tempo livre correndo, praticando boxe e levantando peso com Tony, um fortão de Nova
York que sempre gritava quando falava, jurava que tequila era um afrodisíaco, e era de longe o meu
melhor amigo na unidade. Ele me convenceu a fazer tatuagens nos dois braços assim como ele, e a
cada dia que passava, a memória de quem eu fora um dia se tornava mais e mais distante.
Eu lia bastante também. No exército você tem um bocado de tempo pra ler, e as pessoas negociam
livros aqui e ali ou alugam da biblioteca até que as capas estejam desgastadas. Eu não quero que
você tenha a impressão de que eu me tornei um erudito, porque eu não me tornei. Eu não estava
interessado em Chaucer, Proust, Dostoievski ou qualquer um desses caras mortos; eu lia
principalmente mistérios, suspenses e os livros do Stephen King, criei uma ligação particular com
Carl Hiaasen porque as palavras dele fluíam facilmente e ele sempre me fazia rir. Eu não podia
evitar de pensar que se a escola tivesse indicado esses livros nas aulas de inglês, nós teríamos muito
mais leitores no mundo.
Diferente dos meus colegas eu evitei qualquer perspectiva de companhia feminina. Parece estranho,
certo? No auge da vida, um trabalho cheio de testosterona-o que poderia ser mais natural do que
procurar por uma pequena libertação com ajuda feminina? Não era para mim. Embora alguns dos
caras que eu conhecia namoravam e até casavam com algumas moradoras locais enquanto estavam
com estação em Wiirzburg, eu tinha ouvido bastante estórias para saber que esses casamentos
raramente davam certo. O exército era duro com relações em geral-eu havia visto bastante divórcios
para saber disso-e embora eu não tivesse achado ruim a companhia de alguém especial, nunca
aconteceu. Tony não entendia.
"Você tem que vir comigo," ele suplicou. "Você nunca vem."
"Não estou a fim."
"Como você pode não estar a fim? Sabine jura que a amiga dela é linda. Alta e loira, e ela adora
tequila."
"Leve o Don. Eu tenho certeza de que ele gostaria de ir."
"Castelow? De jeito nenhum. Sabine não o suporta."
Eu não disse nada.
"Nós só vamos nos divertir um pouco."
Balancei minha cabeça, pensando que eu preferia ficar sozinho a voltar a ser o tipo de pessoa que eu
era, mas me peguei me perguntando se acabaria sendo tão monge quanto meu pai. Sabendo que não
poderia me fazer mudar de idéia, Tony não se importou em esconder sua chateação no seu caminho
até a porta.
"Eu não te entendo às vezes."
Quando meu pai me pegou no aeroporto, ele não me reconheceu a princípio e quase pulou quando
dei umas palmadinhas no ombro dele. Ele parecia ser menor do que eu me lembrava. Ao invés de
me oferecer um abraço, apertou minha mão e me perguntou sobre o vôo, mas nenhum de nós sabia
o que dizer depois disso, então saímos do aeroporto. Era estranho e desorientador estar de volta em
casa, e eu me senti com os nervos à flor da pele, como da última vez que tinha tirado licença. No
estacionamento, enquanto eu jogava minha bagagem na mala, vi na traseira do Ford Escort ancião
dele um adesivo de pára-choque que dizia para as pessoas APOIAREM NOSSAS TROPAS. Eu não
estava certo do que aquilo significava para o meu pai, mas fiquei contente em ver.
Em casa, guardei minha bagagem no meu antigo quarto. Tudo estava onde eu me lembrava, os
troféus empoeirados na minha estante e uma garrafa vazia de Wild Turkey no fundo da minha
gaveta de roupas de baixo. A mesma coisa no resto da casa. O cobertor ainda cobria o sofá, a
geladeira verde parecia gritar que aquele não era o seu lugar, e a televisão pegava apenas quatro
canais embaçados. Meu pai cozinhou spaghetti; sexta era sempre spaghetti. No jantar, nós tentamos
conversar.
"É bom estar de volta," eu disse.
Seu sorriso foi breve. "Bom," ele respondeu.
Tomou um gole de leite. No jantar, nós sempre bebíamos leite. Ele se concentrou na sua refeição.
"Você se lembra do Tony?" Eu me aventurei. "Acho que eu o mencionei nas minhas cartas. De
qualquer forma, veja só-ele acha que está apaixonado. O nome dela é Sabine, e ela tem uma filha de
seis anos. O alertei de que essa pode não ser uma boa idéia, mas ele não me ouve."
Ele cuidadosamente salpicou queijo Parmesão na sua comida, se certificando de que todos os
lugares tivessem a quantidade perfeita. "Oh," ele disse. "Certo." Depois disso, eu comi e nenhum de
nós disse nada. Bebi leite. Comi mais um pouco. O relógio fez tique-taque na parede.
"Aposto que você está animado para se aposentar esse ano," sugeri. "Pense que você poderá
finalmente tirar umas férias, ver o mundo." Eu quase disse que ele poderia vir me visitar na
Alemanha, mas me segurei. Eu sabia que ele não iria e não queria colocá-lo contra a parede.
Enrrolamos nossos macarrões simultaneamente enquanto ele parecia ponderar o melhor jeito de
responder.
"Não sei," disse finalmente.
Desisti de tentar falar com ele, e a partir daí os únicos sons eram aqueles vindos dos nossos garfos
quando atingiam os pratos. Quando terminamos o jantar, tomamos nossos caminhos diferentes.
Exausto por causa do vôo, fui para a cama, acordando a cada hora como eu fazia quando estava na
base. Na hora que eu me levantei pela manhã, meu pai já tinha ido para o trabalho.
Comi e li o jornal, tentei falar com um amigo, sem sucesso, então peguei minha prancha de surfe na
garagem e fui à praia. As ondas não estavam ótimas, mas não importava. Eu não tinha estado numa
pracha havia três anos e estava meio enferrujado a princípio, mas até mesmo os menores dribles me
fizeram desejar que minha estação fosse perto do oceano. Era começo de junho de 2000, a
temperatura já estava quente e a água era refrescante. Do meu ponto de vantagem na minha
prancha, eu podia ver pais levando seus pertences a algumas das casas além das dunas. Como eu
mencionei, a praia de Wrightsville estava sempre lotada com famílias que alugavam por uma
semana ou mais, mas ocasionalmente estudantes universitários de Chapel Hill ou Raleigh faziam o
mesmo. Era o último grupo que me interessava, e eu notei um grupo de estudantes de biquínis
pegando seus lugares no deque de trás de uma das casas perto do píer. Fiquei as observando por um
momento, apreciando a vista, depois peguei outra onda e passei o resto da tarde perdido no meu
próprio mundinho.
Pensei em fazer uma visita ao Leroy's mas me dei conta de que nada nem ninguém tinha mudado
além de mim. Ao invés disso, peguei uma garrafa de cerveja da loja da esquina e fui sentar no píer
para aproveitar o pôr-do-sol. A maioria das pessoas pescando já tinham começado a ir embora e os
poucos que restavam estavam limpando sua captura e jogando os restos na água. Com o tempo, a
cor do oceano começou a mudar de cinza para laranja e depois amarelo. Nas barricadas além do píer
eu podia ver os pelicanos em cima de golfinhos enquanto esles surfavam pelas ondas. Eu sabia que
a tarde iria trazer a primeira noite de lua cheia-meu tempo no campo fez da realização quase
instintiva. Eu não estava pensando em muita coisa, só deixando minha mente vaguear. Acredite em
mim, conhecer uma garota era a última coisa que eu tinha em mente.
Foi quando eu a vi subindo o píer. Ou melhor, duas delas andando. Uma era alta e loira, a outra uma
morena atraente, as duas um pouco mais novas que eu. Estudantes universitárias, pareciam. As duas
vestiam shorts e blusas que deixavam os ombros à mostra, e a morena carregava uma daquelas
bolsas grandes de tricô que as pessoas às vezes trazem a praia quando planejam ficar por horas com
as crianças. Eu podia ouví-las conversando e rindo, soando despreocupadas e prontas para as férias,
quando elas se aproximaram.
"Hey," eu chamei quando elas estavam perto. Não muito suave, e eu não posso dizer que esperava
alguma coisa como resposta.
A loira provou que eu estava certo. Ela olhou pra minha prancha e pra garrafa de cerveja na minha
mão e me ignorou com um rolar de olhos. A morena, no entanto, me surpreendeu.
"Oi, estranho," ela respondeu com um sorriso. Ela gesticulou em direção a minha prancha. "Aposto
que as ondas foram ótimas hoje."
O comentário dela me pegou de baixa guarda, e eu ouvi uma bondade inesperada em suas palavras.
Ela e sua amiga continuaram descendo até o fim do píer, e eu me peguei a observando enquanto ela
se apoiava na grade. Eu debati se deveria ou não ir até ela e me apresentar, então decidi que não.
Elas não eram meu tipo, ou mais precisamente, eu não era o delas. Dei um longo gole na minha
cerveja, tentando ignorá-las.
Tentando como pudesse, no entanto, eu não conseguia impedir meu olhar de flutuar de volta para a
morena. Tentei não escutar o que as duas garotas falavam, mas a loira tinha uma daquelas vozes
impossíveis de ignorar.
Ela falava sem parar sobre algum cara chamado Brad e o quanto ela o amava, e como a fraternidade
dela era a melhor da UNC, e a festa que eles tiveram no fim do ano foi a melhor de todas, e que os
outros deveriam se juntar a eles no próximo ano, e que muitas das amigas dela estavam se
agarrando com o pior tipo de caras de fraternidade, e uma delas até ficou grávida, mas a culpa era
dela mesma visto que ela tinha sido alertada sobre o garoto. A morena não falava muito-eu não
sabia se ela estava entretida ou entediada com a conversa-mas de vez em quando, ela ria. De novo,
eu ouvi algo amigável e compreensivo na sua voz, alguma coisa semelhante a voltar pra casa, o que
eu admito, não fez nenhum sentido. Enquanto eu colocava de lado minha garrafa de cerveja, notei
que ela colocou a bolsa na grade.
Elas tinham ficado lá por dez minutos mais ou menos antes de dois caras começarem a subir o píercaras
de fraternidade, eu adivinhei-vestindo blusas rosa e laranja da Lacoste sobre seus shorts da
Bermuda. Meu primeiro pensamento foi que um daqueles dois devia ser o Brad sobre o qual a loira
falava. Os dois carregavam cervejas e ficavam mais furtivos enquanto se aproximavam, como se
pretendessem dar um susto nas garotas. Era mais que provável que as duas garotas queriam eles ali,
e depois de um rápido susto, completo com um grito e alguns tapas amigáveis no braço, eles iriam
voltar juntos, rindo e fazendo gozações ou o que quer que seja que casais universitários façam.
Tudo devia ter acontecido desse jeito, porque os garotos fizeram exatamente o que eu pensei que
eles fariam. Assim que eles chegaram perto, pularam nas garotas com um grito; as duas guincharam
e fizeram o negócio das tapinhas amigáveis. Os garotos piaram e o camisa rosa derramou um pouco
da sua cerveja. Ele se apoiou na grade, perto da bolsa e cruzou as pernas, com seus braços atrás
dele.
"Ei, nós vamos começar a fogueira em alguns minutos," o camisa laranja disse, colocando seus
braços em volta da loira. Ele beijou o percoço dela. "Vocês duas estão prontas para voltar?"
"Pronta?" a loira perguntou, olhando para a amiga.
"Claro," a morena respondeu.
O camisa rosa se desencostou da grade, mas de algum modo sua mão deve ter batido na bolsa,
porque ela escorregou, então caiu por cima da borda. O splash soou como se um peixe tivesse
pulado.
"O que foi isso?" ele perguntou, se virando.
"Minha bolsa!" a morena gritou. "Você derrubou."
"Desculpe," ele disse, não parecendo particularmente arrependido.
"Minha carteira estava lá!"
Ele franziu o cenho. "Eu pedi desculpas."
"Você tem que ir pegar antes que afunde!"
Os caras da fraternidade pareciam congelados, e eu sabia que nenhum dos dois tinha a intenção de
pular na água e pegar a bolsa. Pra começar, eles provavelmente nunca iriam achá-la, e depois teriam
que nadar até a areia, algo que não era recomendado se alguém tivesse bebido, o que eles
obviamente tiham feito. Eu acho que a morena também leu a expressão do camisa rosa, porque eu
vi ela colocando as duas mãos e um pé na grade. "Não seja boba. Já era," o camisa rosa declarou,
colocando a sua mão nas dela para pará-la. "É muito perigoso para pular. Dever ter tubarões lá
embaixo. É só uma carteira. Eu compro uma nova pra você."
"Eu preciso daquela carteira! Todo o meu dinheiro está lá!"
Não era da minha conta, eu sei. Mas tudo o que eu podia pensar enquanto me punha de pé e corria
para a beira do píer era, Ah, que se dane...
Meu nome é John Tyree. Eu nasci em 1977, e cresci em Wilmington, Carolina do Norte, uma cidade
que orgulhosamente ostenta o maior porto do estado assim como uma longa e vibrante história, mas
agora ela me parece mais uma cidade que aconteceu por acidente.
Claro, o tempo era ótimo e as praias eram perfeitas, mas a cidade não estava pronta para a onda de
de ianques aposentados do norte que queriam algum lugar barato para passar seus anos de ouro. A
cidade fica localizada em uma ponta de terra relativamente pequena, cercada pelo Rio Cape Fear de
um lado e o oceano do outro. A rodovia 17-que leva a praia Myrtle e a charleston-divide a cidade e
serve como sua estrada principal. Quando eu era criança, meu pai e eu podíamos dirigir da zona
histórica perto do Rio Cape Fear até a praia Wrightsville em dez minutos, mas tantos semáforos e
shopping centers têm sido adicionados que agora pode levar uma hora, especialmente nos finais de
semana, quando os turistas vêm de montes. A praia de Wrightsville, localizada em uma ilha logo
além da costa, está no ponto mais norte de Wilmington e é de longe uma das praias mais populares
do estado. As casas ao longo das dunas são ridiculamente caras, e a maioria delas são alugadas por
todo o verão. Os Outer Banks devem ter um apelo mais romântico por causa do isolamento deles e
os cavalos selvagens e aquele vôo pelo qual Orville e Wilbur são famosos, mas me deixe lhe
dizer uma coisa, a maioria das pessoas que vão à praia nas férias se sentem mais em casa quando
podem achar um McDonald's ou um Burger King por perto, para o caso dos pequenos não gostarem
muito da comida local, e querem mais do que duas opções quanto a atividades noturnas.
Como todas as cidades, Wilmington é rica em alguns lugares e pobre em outros, e desde que meu
pai conseguiu um dos empregos mais estáveis e sólidos do planeta-ele dirigia uma rota de entrega
de correspondência para o correio-nós ficamos bem. Não ótimos, mas bem. Nós não éramos ricos,
mas vivíamos perto o bastante da área rica da cidade para eu frequentar uma das melhores escolas
de lá. Embora, diferente das casas dos meus amigos, a nossa casa fosse velha e pequena; parte da
varanda tinha começado a vergar, mas o jardim era o que salvava a casa. Havia um grande carvalho
no quintal, e quando eu tinha oito anos de idade construí uma casa na árvore com pedaços de
madeira que eu peguei de uma construção. Meu pai não me ajudou com o projeto (se ele martelasse
uma unha, podia ser chamado honestamente de um acidente); foi no mesmo verão que eu ensinei a
mim mesmo como surfar. Acho que eu deveria ter me dado conta aí do quanto meu pai e eu éramos
diferentes, mas isso só mostra o quão pouco você sabe sobre a vida quando se é uma criança.
Meu pai e eu éramos tão diferentes um do outro quanto duas pessoas podem possivelmente ser. Ele
era passivo e introspectivo, eu estava sempre me movimentando e odiava ficar sozinho; ele dava
grande valor a educação, escola para mim era como um clube social com esportes inseridos. Ele
tinha uma má postura e tendia a arrastar os pés quando andava; eu saltava aqui e ali, pedindo a ele
pra marcar quanto tempo eu levava pra correr até o final do quarteirão e voltar. Eu era mais alto que
ele quando estava na oitava série e podia ganhar dele na queda de braço um ano depois. Nossas
características físicas eram completamente diferentes também. Enquanto ele tinha cabelos cor de
areia, olhos cor de avelã e sardas, eu tinha olhos e cabelos castanhos e minha pele azeitonada
escurecia para um forte bronzeado em maio. Nossas diferenças foram tomadas pelos nossos
vizinhos como estranhas, eu acho, considerando que ele tinha me criado sozinho. Quando fiquei
mais velho, algumas vezes eu ouvia eles cochichando sobre o fato de que minha mãe tinha fugido
quando eu tinha menos de um ano. Embora mais tarde eu tenha suspeitado que minha mãe tivesse
encontrado outra pessoa, meu pai nunca comfirmou isso. Tudo o que ele tinha dito era que ela tinha
se dado conta que tinha cometido um erro casando tão jovem, e que ela não estava pronta para ser
uma mãe. Ele nem tratava ela com desdém, nem a elogiava, mas se certificou que eu a incluísse nas
minhas orações, não importando onde ela estivesse ou o que ela havia feito.
"Você me lembra ela," ele tinha dito algumas vezes.
Até hoje, eu nunca falei uma única palavra com ela, nem tenho nenhum desejo de falar.
Eu acho que meu pai era feliz. Eu coloco assim porque ele raramente mostrava suas emoções.
Abraços e beijos eram uma raridade pra mim quando eu estava crescendo, e quando aconteciam,
eles geralmente pareciam sem vida, algo que ele tinha feito porque sentiu que tinha que fazer, não
porque ele quisesse fazer. Eu sei que ele me amava pelo modo que ele se dedicou a cuidar de mim,
mas ele tinha 43 anos quando me teve, e uma parte de mim acha que meu pai se daria melhor como
um monge do que como um pai. Ele era o homem mais quieto que eu já conheci. Fazia poucas
perguntas sobre o que estava acontecendo na minha vida, e do mesmo jeito que raramente ficava
com raiva, ele raramente brincava. Vivia para a rotina. Fazia ovos mexidos, torradas e bacon para
mim todas as manhãs e ouvia eu falar sobre a escola, no jantar que ele também tinha nos preparado.
Ele marcava visitas ao dentista com dois meses de antecedência, pagava suas contas no sábado de
manhã, lavava a roupa no domingo à tarde e saía de casa todo dia exatamente às 7:35 da manhã. Ele
era socialmente estranho e passava longas horas sozinho todos os dias, deixando pacotes e maços de
cartas nas caixas de correio ao longo da sua rota. Ele não namorava, nem passava noites de fim de
semana jogando poker com seus colegas; o telefone podia ficar em silêncio por semanas. Quando
tocava, ou era engano ou telemarketing. Eu sei o quanto deve ter sido difícil pra ele me criar
sozinho, mas ele nunca reclamava, nem mesmo quando eu o desapontava.
Eu passava a maioria das minhas tardes sozinho. Com as obrigações do dia finalmente finalizadas,
meu pai ia pra sua toca ficar com as suas moedas. Essa era a maior paixão da vida dele. Ele ficava
muito contente quando sentado na sua toca, estudando uma carta de um negociador de moedas
apelidado de Greysheet e tentando descobrir qual era a próxima moeda que ele devia adicionar a sua
coleção. O herói do meu avô era um homem chamado Louis Eliasberg, um financiador de
Baltimore que é a única pessoa a ter reunido uma coleção completa das moedas dos Estados
Unidos, incluindo várias datas e marcas da Casa da Moeda. Sua coleção se igualava, se não
superasse, a coleçao do Smithsonian, e depois da morte da minha avó em 1951, meu avô ficou
obcecado com a idéia de construir uma coleção com o filho. Durante os verões, meu avô e meu pai
viajavam de trem pra várias Casas da Moeda para coletar moedas de primeira mão ou visitavam
vários eventos de moedas no sudeste. Logo, meu avô e meu pai estabeleceram relações com
negociadores de moedas por todo o país, e meu avô gastou uma fortuna negociando e melhorando a
coleção todos esses anos. Mas diferente de Eliasberg, contudo, meu avô não era rico-ele tinha um
armazém em Burgaw que faliu quando a Piggly Wiggly abriu suas portas por toda a cidade-e
nunca teve chance de alcançar a coleção do Eliasberg. Mesmo assim, todo dólar extra se
transformava em mais moedas. Meu avô vestiu a mesma jaqueta por trinta anos, dirigiu o mesmo
carro a vida toda, e eu tenho certeza que meu pai foi trabalhar para o correio ao invés de ir para a
faculdade porque não sobrou um centavo para pagar qualquer coisa além do Ensino Médio. Ele era
um cara estranho, com certeza, assim como meu pai. Tal pai, tal filho, como diz o velho ditado.
Quando o velho finalmente passou dessa pra melhor, ele especificou no testamento que a casa seria
vendiada e o dinheiro seria usado para comprar mais moedas, o que provavelmente seria o que meu
pai teria feito de qualquer forma.
Quando meu pai herdou a coleção, já era bem valiosa. Quando a inflação subiu para o telhado e o
ouro atingiu $850 a onça, valia uma pequena fortuna, mais do que o suficiente para o meu pai
econômico se aposentar algumas vezes e mais do que valeria 25 anos depois. Mas nem meu avô
nem meu pai tinham começado a colecionar pelo dinheiro; eles estavam nisso pela emoção da
caçada e pelo laço que se criou entre eles.
Tinha alguma coisa excitante em longas e duras procuras por uma moeda específica, finalmente
localizá-la, depois negociar para conseguí-la pelo preço certo. Algumas vezes eles podiam pagar por
uma moeda, outras vezes não, mas cada peça que eles adicionavam à coleção era um tesouro. Meu
pai esperava partilhar a mesma paixão comigo, incluindo o sacrifício que ela requeria. Crescendo,
eu tive que dormir com cobertores extras no inverno, e eu só comprava um único par de sapatos por
ano; nunca havia dinheiro para minhas roupas, a não ser que elas viessem do Exército da
Salvação. Meu pai nem tinha uma câmera. A única foto tirada de nós foi em um evento de
moedas em Atlanta. Um negociador tirou nossa foto enquanto nós estávamos de pé em frente a sua
barraca e depois nós enviou a foto. Por anos ela ficou empoleirada na mesa do meu pai. Na foto, o
braço do meu pai estava jogado sobre os meus ombros, e nós dois estávamos sorrindo alegremente.
Na minha mão, eu segurava um níquel búfalo 1926-D em condição de pedra preciosa, uma moeda
que meu pai tinha acabado de comprar. Estava entre os níqueis búfalos mais raros, e nós acabamos
comendo cachorro quente e feijão por um mês, visto que a moeda custou mais do que ele esperava.
Mas eu não me importava com os sacrifícios-por um tempo de qualquer forma. Quando meu pai
começou a falar comigo sobre moedas-eu devia estar na primeira ou segunda série na época-ele
falou comigo como um igual. Ter um adulto, especialmente seu pai, tratando você como um igual é
uma coisa importante para qualquer criança, e eu aproveitava a atenção absorvendo a informação.
Logo eu podia lhe dizer quantas águias duplas Saint-Gaudens foram cunhadas em 1927 comparadas
com 1924 e porque uma moeda de dez centavos Barber cunhada em Nova Orleans era dez vezes
mais valiosa do que a mesma moeda cunhada no mesmo ano na Filadélfia. Eu ainda posso, à
proposito. Ainda que, diferente do meu pai, eu comecei a parar com a minha paixão por moedas.
Era tudo sobre o que meu pai parecia ter a capacidade de falar, e depois de seis ou sete anos de
finais de semana passados com ele ao invés de com amigos, eu queria sair. Como a maioria dos
garotos, eu comecei a me importar com outras coisas: esportes, garotas, carros e música,
primeiramente, e quando fiz 14 anos, eu passava muito pouco tempo em casa. Meu ressentimento
começou a crescer também. Pouco a pouco, eu comecei a notar diferenças no modo que nós
vivíamos quando me comparava com a maioria dos meus amigos. Enquanto eles tinham dinheiro
para gastar indo ao cinema ou comprando um par de óculos estiloso, eu me achava procurando por
moedas no sofá pra comprar um hamburguer no McDOnald's. Mais do que alguns dos meus amigos
receberam carros nos seus aniversários de 16 anos; meu pai me deu um dólar prateado Morgan de
1883 cunhado em Carson City. Os rasgos do nosso sofá usado eram cobertos por um cobertor, e nós
éramos a única família que eu conheço que não tinha tv a cabo ou um forno microondas.
Quando a nossa geladeira quebrou, ele comprou uma usada que era da cor do tom mais horroroso de
verde do mundo, uma cor que não combinava com mais nada na cozinha. Eu ficava com vergonha
só de pensar em chamar meus amigos para me visitar, e culpei meu pai por isso. Eu sei que era
muito ridículo eu me sentir assim-se a falta de dinheiro me incomodava tanto, eu poderia ter
aparado gramados ou arranjado empregos estranhos, por exemplo, mas as coisas eram assim. Eu era
cego como um caracol e bobo como um camelo, mas mesmo que eu lhe dissesse que eu me
arrependo da minha imaturidade agora, eu não posso desfazer o passado.
Meu pai sentiu que alguma coisa estava mudando, mas ele estava perdido sobre o que fazer com a
gente. Ele tentou, no entanto, do único modo que ele sabia, do único modo que o pai dele sabia. Ele
falava sobre moedas-era o único assunto que ele podia discutir com facilidade-e continuou a fazer
meus cafés-da-manhã e jantares; mas o nosso estranhamento cresceu com o tempo. Ao mesmo
tempo, eu me afastei dos amigos que eu sempre conheci. Eles começaram a fazer panelinhas,
baseadas principalmente em que filmes eles iriam ver ou nas últimas camisas que eles tinham
comprado no shopping, eu percebi que estava olhando pra eles de fora. Que se danem, eu pensei.
No Ensino Médio, existe sempre um espaço pra todo mundo, eu comecei a me juntar com o tipo
errado de pessoas, pessoas que não davam a mínima pra nada, o que me deixava não dando a
mínima também. Eu comecei a cabular aulas e a fumar e fui suspenso três vezes por brigar.
Eu desisti dos esportes também. Eu tinha jogado futebol americano, basquete e praticado corrida até
o segundo ano, e embora meu pai algumas vezes perguntasse como eu tinha ido quando eu chegava
em casa, ele parecia desconfortável se eu entrasse em detalhes, visto que era óbvio que ele não sabia
nada de esportes. Ele nunca participou de um time na vida. Ele apareceu para um único jogo de
basquete durante o meu segundo ano. Sentou nas arquibancadas, um estranho cara careca vestindo
uma jaqueta de esportes usada e meias que não combinavam. Embora ele não fosse obeso, suas
calças apertavam na cintura, fazendo-o parecer como se estivesse grávido de três meses, e eu sabia
que não queria ter nada a ver com ele. Eu fiquei desconcertado com a sua aparência e depois do
jogo eu o evitei. Não sinto orgulho de mim mesmo por isso, mas era assim que eu era.
As coisas pioraram. No meu último ano, minha rebeldia atingiu um ponto alto. Minhas notas
vinham escorregando por dois anos, mais por preguiça e falta de cuidado que por inteligência (eu
gosto de pensar), e mais de uma vez meu pai me pegou entrando às escondidas em casa com bafo de
birita. Eu fui escoltado até em casa pela polícia depois de ser encontrado em uma festa onde drogas
e bebida eram evidentes, e quando meu pai me colocou de castigo, eu fiquei na casa de um amigo
por algumas semanas depois de esbravejar com ele para cuidar da sua própria vida. Ele não disse
nada quando eu voltei; ao invés disso, ovos mexidos, torradas e bacon estavam na mesa de manhã
como sempre. Eu mal passei de ano, e suspeito que a escola deixou eu me formar simplesmente
porque me queriam fora de lá. Eu sei que meu pai estava preocupado, e ele às vezes, do seu modo
tímido, abordava o assunto da universidade, mas nesse tempo, eu já tinha decidido não ir. Eu queria
um emprego, eu queria um carro, eu queria aquelas coisas materiais que eu tinha vivido dezoito
anos sem.
Eu não disse nada pra ele sobre isso de um jeito ou de outro até o verão depois da formatura, mas
quando ele se deu conta que eu não tinha nem me inscrito em alguma universidade, ele se trancou
em sua toca pelo resto da noite e não me disse nada durante o nosso ovos com bacon na manhã
seguinte. Mais tarde naquele dia, ele tentou me envolver em outra discussão sobre moedas, como se
estivesse se agarrando ao companheirismo que tinha de algum modo se perdido entre nós.
"Lembra quando nós fomos para Atlanta e foi você que achou aquele níquel de cabeça de búfalo
que nós procuramos por anos?" ele começou. "Aquele dia que tiraram a nossa foto? Eu nunca vou
esquecer o quanto você estava animado. Me lembrou do meu pai e eu."
Eu sacudi a cabeça, toda a frustração da vida com o meu pai vindo à superfície.
"Eu estou de saco cheio e cansado de ouvir sobre moedas!" Eu gritei pra ele. "Não quero nunca
mais ouvir falar sobre isso! Você devia vender essa maldita coleção e fazer outra coisa. Qualquer
coisa!"
Meu pai não disse nada, mas eu nunca esquecerei a sua expressão de dor quando ele finalmente se
virou e se arrastou de volta até sua toca. Eu tinha machucado ele, e embora tenha dito a mim mesmo
que não queria fazer isso, lá no fundo eu sabia que estava mentindo pra mim mesmo. A partir daí
meu pai raramente puxou o assunto das moedas de novo. Nem eu. Se tornou um enorme abismo
entre nós, e nos deixou sem nada a dizer um ao outro.
Alguns dias depois me dei conta de que a nossa única fotografia tinha desaparecido, como se ele
acreditasse que até mesmo a mínima lembrança de moedas me ofenderia. Naquele tempo
provavelmente me ofenderia, e mesmo eu supondo que ele tinha jogado a foto fora, essa descoberta
não me incomodou nem um pouco.
Crescendo, eu nunca considerei entrar no exército. Apesar do fato de que o leste da Carolina do
Norte é uma da áreas mais militarmente densas do país-você pode ver sete bases em algumas horas
de passeio de carro por Wilmington-eu costumava pensar que a vida militar era para perdedores.
Quem queria passar a vida recebendo ordem de um bando de homens de uniforme com crew-cut?
Eu não, e tirando os caras do ROTC, nem muitas pessoas na minha escola. Ao invés disso, muitos
que tinham sido bons alunos iam para a Universidade da Carolina do Norte ou para a North
Carolina State, enquanto as crianças que não tinham sido bons estudantes ficavam pra trás,
vagabundeando de um péssimo emprego a outro, bebendo cerveja e saindo por aí, e evitando a
qualquer custo alguma coisa que requeresse uma sombra de responsabilidade.
Eu caí na última categoria. Nos dois primeiros anos depois da formatura, eu tive uma sucessão de
empregos, trabalhando como garçom no Outback Steakhouse, recolhendo canhotos de ingressos no
cinema local, carregando e descarregando caixas na Staples, fazendo panquecas na Waffle House, e
trabalhando como caixa em alguns lugares turísticos que vendiam porcarias para as pessoas de fora
da cidade. Eu gastava cada centavo que ganhava, não tinha nenhuma ilusão sobre ascender na
escala profissional, e acabei sendo despedido de todo trabalho que eu tive. Por um tempo, eu não
me importava. Estava vivendo minha vida. Eu era profissional em surfar e dormir até tarde, e visto
que eu ainda estava vivendo em casa, nada do que eu ganhava era necessário pra coisas como
aluguel ou comida ou seguro ou preparação para o futuro. Além disso, nenhum dos meus amigos
estava melhor do que eu. Eu não me lembro de ser particularmente infeliz, mas depois de um tempo
fiquei cansado da minha vida. Não a parte do surf-em 1996, os furacões Bertha e Fran atingiram a
costa, e aquelas foram algumas das melhores ondas em anos-mas ir pro bar Leroy's depois do surf.
Eu comecei a perceber que toda noite era a mesma. Eu bebia cerveja e esbarrava com alguém que
conhecia da escola, e eles perguntavam o que eu estava fazendo e eu lhes dizia, e eles me contavam
o que estavam fazendo, e não precisava ser um gênio pra se dar conta de que os dois estavam na
estrada mais rápida pra lugar nenhum. Mesmo se eles tivessem suas próprias casas, o que eu não
tinha, eu nunca acreditei neles quando me contavam que gostavam de seus trabalhos como
cavadores de valeta ou limpadores de janela ou transportadores de Porta Potti, porque eu sabia
muito bem que nenhum desses trabalhos era o tipo de ocupação que eles cresceram sonhando em
ter. Eu posso ter sido preguiçoso na sala de aula, mas eu não era burro.
Eu fiquei com dúzias de garotas naquele período. No Leroy's sempre havia mulheres. A maioria
eram relações que eu esquecia com facilidade. Eu usei mulheres, me permiti ser usado e sempre
manti meus sentimentos pra mim mesmo. Apenas a minha relação com uma menina chamada Lucy
durou mais que alguns meses, e por um tempo antes de nós inevitavelmente nos separarmos, eu
pensei que estava apaixonado por e la. Ela era estudante na UNC Wilmington, um ano mais velha
que eu, e queria trabalhar em Nova York depois de se formar. "Eu me importo com você," ela me
disse na nossa última noite juntos, "mas você e eu queremos coisas diferentes. Você poderia fazer
muito mais com a sua vida, mas por alguma razão, está contente em simplesmente flutuar por ela."
Ela hesitou antes de continuar. "Mas mais do que isso, eu nunca sei o que você realmente sente por
mim." Eu sabia que ela estava certa. Logo depois ela foi embora em um avião sem se importar em
dizer adeus. Um ano mais tarde, depois de conseguir o número com seus pais, liguei pra ela e nos
falamos por vinte minutos.
Estava noiva de um advogado, ela me disse, e estaria casada em Junho próximo.
A ligação me afetou mais do que eu pensei que me afetaria. Veio em um dia em que eu tinha
acabado de ser demitido-de novo-fui me consolar no Leroy's, como sempre. O mesmo grupo de
perdedores estava lá, e eu de repente me dei conta de que não queria passar outra tarde sem sentido
fingindo que tudo na minha vida estava bem. Ao invés disso eu comprei um pacote de seis cervejas
e fui sentar na praia.
Era a primeira vez em anos que eu realmente pensava no que estava fazendo com a minha vida, e
me perguntei se deveria seguir o conselho do meu pai e conseguir um diploma universitário. Porém,
eu tinha ficado fora da escola por tanto tempo que a idéia me pareceu estranha e ridícula. Chame de
sorte ou má sorte, mas nessa hora dois fuzileiros navais apareceram. Jovens e em forma, eles
irradiavam fácil confiança. Se eles podiam fazer, falei pra mim mesmo, eu também podia.
Refleti sobre isso alguns dias, e no final, meu pai teve alguma coisa a ver com a minha decisão. Não
que eu tenha falado com ele sobre isso, claro-nós não estávamos nos falando à essa altura. Eu estava
indo a cozinha uma noite e o vi sentado à sua mesa, como sempre. Mas desta vez, eu realmente o
analizei. Seus cabelos eram quase inexistentes, e o pouco que restou tinha se tornado
completamente cinza acima das orelhas. Ele estava perto de se aposentar, e eu fui atingido pela
noção de que eu não tinha o direito de continuar decepcionando-o depois de tudo que ele tinha feito
por mim.
Então eu ingressei no exército. Meu primeiro pensamento foi que eu iria me juntar a Marinha, visto
que eles eram os caras com quem eu estava mais familiarizado. A praia de Wrightsville estava
sempre lotada com jarheads de Camp Lejeune ou Cherry Point, mas quando a hora chegou, eu
escolhi o exército. Me dei conta que seguraria um rifle de qualquer maneira, mas o que realmente
foi decisivo foi que o recrutador da Marinha estava em horário de almoço quando eu apareci e não
estava disponível imediatamente, enquanto o recrutador do exército-cujo escritório era do outro
lado da rua-estava. No final, a decisão pareceu mais espontânea do que planejada, mas eu assinei na
linha pontilhada pra um alistamento de quatro anos, e quando o recrutador deu palminhas nas
minhas costas enquanto eu saía porta a fora, eu me encontrei me perguntando no que eu tinha me
metido. Isso foi no final de 1997, e eu tinha 20 anos de idade.
O Boot Camp em Fort Benning foi tão horrível como eu pensei que seria. A coisa toda parecia
projetada para humilhar e fazer uma lavagem nos nossos cérebros pra seguirmos ordens sem
perguntas, não importando o quão estúpidas elas fossem, mas eu me adaptei mais rapidamente do
que muitos caras. Uma vez que eu passei por isso, escolhi a infantaria. Nós passamos os próximos
meses fazendo muitas simulações em lugares como Lousisiana e o bom e velho Fort Bragg, onde
nós basicamente aprendemos a melhor maneira de matar pessoas e quebrar coisas; e depois de um
tempo, minha unidade, como parte da Primeira Divisão de Infantaria-mais conhecida como a
Grande Vermelha-foi mandada para a Alemanha. Eu não falava uma palavra em alemão, mas não
importava, visto que todo mundo com quem eu lidava falava inglês. Foi fácil no começo, então a
vida no exército se instalou. Eu passei sete meses preguiçosos nos Balcãs-primeiro na Macedônia
em 1999, depois em Kosovo onde eu fiquei até o final da primavera de 2000. A vida no exérciot não
pagava muito, mas considerando que não havia aluguel, gastos com comida e realmente nada com o
que gastar meus salários até mesmo quando eu os recebia, eu tinha dinheiro no banco pela primeira
vez. Não muito, mas o suficiente.
Eu passei a minha primeira licença em casa completamente entediado.
A minha segunda licença eu passei em Las Vegas. Um dos meus colegas tinha crescido lá, e três de
nós ficamos na casa dos pais dele. Eu acabei com praticamente tudo que tinha economizado. Na
minha terceira licença, depois de voltar de Kosovo, eu estava desesperadamente necessitando de
uma pausa e decidi voltar pra casa, esperando que o tédio da visita fosse acalmar a minha mente.
Por causa da distância, meu pai e eu raramente falávamos no telefone, mas ele me escrevia cartas
que eram sempre seladas no primeiro dia de cada mês. Elas não eram como as que meus colegas
recebiam de suas mães, irmãs e esposas. Nada muito pessoal, nada piegas, e nunca uma palavra que
sugerisse que ele sentia a minha falta. E ele tão pouco mencionava moedas. Ao invés disso, ele
escrevia sobre mudanças na vizinhança e muito sobre o tempo; quando eu escrevi para contar a ele
sobre um fogo cruzado bem cabeludo que eu tive nos Balcãs, ele escreveu de volta pra dizer que
estava feliz que eu tinha sobrevivido, mas não disse mais nada sobre isso. Eu sabia pelo modo que
ele tinha expressado sua resposta que ele não queria ouvir sobre as coisas perigosas que eu fazia. O
fato de eu estar em perigo o aterrorizava, então eu comecei a omitir as coisas assustadoras. Ao invés
disso, eu mandava cartas sobre como o dever de guarda era, sem sombra de dúvida, o emprego mais
entediante e a única coisa excitante que acontecia comigo era tentar adivinhar quantos cigarros os
outros guardas fumariam em uma única tarde. Meu pai terminava cada carta com a promessa de que
escreveria de novo logo, e mais uma vez, o homem não me decepcionou. Ele era, eu comecei a
acreditar nisso a muito tempo, um homem muito melhor do que eu jamais serei.
Mas eu tinha crescido nos últimos três anos. Sim, eu sei, sou um clichê ambulante-entrar como um
garoto, sair como um homem e tudo isso. Mas todo mundo no exército é forçado a crescer,
especialmentte se você é da infataria como eu. Você é confiado com equipamento que custa uma
fortuna, outros põem sua confiança em você, e se você estragar alguma coisa, a penalidade é bem
mais séria do que ser mandado pra cama sem o jantar. Claro, há muita papelada e tédio, e todo
mundo fuma e não consegue completar uma frase sem xingar e têm caixas de revistas safadas
embaixo de suas camas, e você tem que responder aos caras da ROTC que acabaram de sair da
universidade que acham que brutos como eu têm o QI de um Neanderthal; mas você é forçado a
aprender a lição mais importante da vida, que é o fato de que você tem que aprender a viver com as
suas responsabilidades, e é melhor você fazer isso direito. Quando recebe uma ordem você não
pode dizer não. Não é exagero dizer que vidas estão por um fio. Uma decisão errada e o seu colega
pode morrer. É esse fato que faz o exército funcionar. É esse o grande erro que as pessoas cometem
quando se perguntam como os soldados podem colocar suas vidas em risco dia após dia ou como
eles podem lutar por algo em que não acreditam. Nem todo mundo desacredita. Eu trabalhei com
soldados de todos os lados do espectro político; encontrei alguns que odiavam o exército e outros
que queriam fazer dele uma carreira. Encontrei gênios e idiotas, mas quando tudo é dito e feito, nós
fazemos o que fazemos uns pelos outros. Por amizade. Não pelo país, não por patriotismo, não por
que somos máquinas programadas para matar, mas por causa do cara ao seu lado. Você luta pelo seu
amigo, para manter ele vivo, e ele luta por você e tudo no exército é construído sobre essa simples
premissa.
Mas como eu disse, eu tinha mudado. Entrei no exército como um fumante e quase coloquei um
pulmão pra fora no Boot Camp, mas diferente de praticamente todos da minha unidade, eu parei e
não encosto nessas coisas há mais de dois anos. Moderei minha bebederia até o ponto que uma ou
duas cervejas por semana eram suficientes, e deve fazer um mês que eu não tomo nenhuma. Meu
recorde era sem sentido. Eu fui promovido de soldado raso à cabo e depois, seis meses mais tarde, à
sargento, e descobri que tinha uma habilidade de liderar. Eu liderava homens em fogo cruzados e
meu esquadrão estava envolvido na captura de um dos criminosos de guerra mais perigosos dos
Balcãs. Meu oficial comandante me recomendou à Escola para Candidatos a Oficial (OCS), e eu
estava debatendo se iria me tornar um oficial ou não, mas isso às vezes significava um emprego de
escritório e ainda mais papelada, e eu não estava certo se queria isso. Tirando o surfe eu não tinha
feito exercício por anos antes de ingressar no serviço; na época que eu tirei minha terceira licença,
ganhei 7 quilos de músculos e acabei com os pneuzinhos da minha barriga. Passava a maior parte
do meu tempo livre correndo, praticando boxe e levantando peso com Tony, um fortão de Nova
York que sempre gritava quando falava, jurava que tequila era um afrodisíaco, e era de longe o meu
melhor amigo na unidade. Ele me convenceu a fazer tatuagens nos dois braços assim como ele, e a
cada dia que passava, a memória de quem eu fora um dia se tornava mais e mais distante.
Eu lia bastante também. No exército você tem um bocado de tempo pra ler, e as pessoas negociam
livros aqui e ali ou alugam da biblioteca até que as capas estejam desgastadas. Eu não quero que
você tenha a impressão de que eu me tornei um erudito, porque eu não me tornei. Eu não estava
interessado em Chaucer, Proust, Dostoievski ou qualquer um desses caras mortos; eu lia
principalmente mistérios, suspenses e os livros do Stephen King, criei uma ligação particular com
Carl Hiaasen porque as palavras dele fluíam facilmente e ele sempre me fazia rir. Eu não podia
evitar de pensar que se a escola tivesse indicado esses livros nas aulas de inglês, nós teríamos muito
mais leitores no mundo.
Diferente dos meus colegas eu evitei qualquer perspectiva de companhia feminina. Parece estranho,
certo? No auge da vida, um trabalho cheio de testosterona-o que poderia ser mais natural do que
procurar por uma pequena libertação com ajuda feminina? Não era para mim. Embora alguns dos
caras que eu conhecia namoravam e até casavam com algumas moradoras locais enquanto estavam
com estação em Wiirzburg, eu tinha ouvido bastante estórias para saber que esses casamentos
raramente davam certo. O exército era duro com relações em geral-eu havia visto bastante divórcios
para saber disso-e embora eu não tivesse achado ruim a companhia de alguém especial, nunca
aconteceu. Tony não entendia.
"Você tem que vir comigo," ele suplicou. "Você nunca vem."
"Não estou a fim."
"Como você pode não estar a fim? Sabine jura que a amiga dela é linda. Alta e loira, e ela adora
tequila."
"Leve o Don. Eu tenho certeza de que ele gostaria de ir."
"Castelow? De jeito nenhum. Sabine não o suporta."
Eu não disse nada.
"Nós só vamos nos divertir um pouco."
Balancei minha cabeça, pensando que eu preferia ficar sozinho a voltar a ser o tipo de pessoa que eu
era, mas me peguei me perguntando se acabaria sendo tão monge quanto meu pai. Sabendo que não
poderia me fazer mudar de idéia, Tony não se importou em esconder sua chateação no seu caminho
até a porta.
"Eu não te entendo às vezes."
Quando meu pai me pegou no aeroporto, ele não me reconheceu a princípio e quase pulou quando
dei umas palmadinhas no ombro dele. Ele parecia ser menor do que eu me lembrava. Ao invés de
me oferecer um abraço, apertou minha mão e me perguntou sobre o vôo, mas nenhum de nós sabia
o que dizer depois disso, então saímos do aeroporto. Era estranho e desorientador estar de volta em
casa, e eu me senti com os nervos à flor da pele, como da última vez que tinha tirado licença. No
estacionamento, enquanto eu jogava minha bagagem na mala, vi na traseira do Ford Escort ancião
dele um adesivo de pára-choque que dizia para as pessoas APOIAREM NOSSAS TROPAS. Eu não
estava certo do que aquilo significava para o meu pai, mas fiquei contente em ver.
Em casa, guardei minha bagagem no meu antigo quarto. Tudo estava onde eu me lembrava, os
troféus empoeirados na minha estante e uma garrafa vazia de Wild Turkey no fundo da minha
gaveta de roupas de baixo. A mesma coisa no resto da casa. O cobertor ainda cobria o sofá, a
geladeira verde parecia gritar que aquele não era o seu lugar, e a televisão pegava apenas quatro
canais embaçados. Meu pai cozinhou spaghetti; sexta era sempre spaghetti. No jantar, nós tentamos
conversar.
"É bom estar de volta," eu disse.
Seu sorriso foi breve. "Bom," ele respondeu.
Tomou um gole de leite. No jantar, nós sempre bebíamos leite. Ele se concentrou na sua refeição.
"Você se lembra do Tony?" Eu me aventurei. "Acho que eu o mencionei nas minhas cartas. De
qualquer forma, veja só-ele acha que está apaixonado. O nome dela é Sabine, e ela tem uma filha de
seis anos. O alertei de que essa pode não ser uma boa idéia, mas ele não me ouve."
Ele cuidadosamente salpicou queijo Parmesão na sua comida, se certificando de que todos os
lugares tivessem a quantidade perfeita. "Oh," ele disse. "Certo." Depois disso, eu comi e nenhum de
nós disse nada. Bebi leite. Comi mais um pouco. O relógio fez tique-taque na parede.
"Aposto que você está animado para se aposentar esse ano," sugeri. "Pense que você poderá
finalmente tirar umas férias, ver o mundo." Eu quase disse que ele poderia vir me visitar na
Alemanha, mas me segurei. Eu sabia que ele não iria e não queria colocá-lo contra a parede.
Enrrolamos nossos macarrões simultaneamente enquanto ele parecia ponderar o melhor jeito de
responder.
"Não sei," disse finalmente.
Desisti de tentar falar com ele, e a partir daí os únicos sons eram aqueles vindos dos nossos garfos
quando atingiam os pratos. Quando terminamos o jantar, tomamos nossos caminhos diferentes.
Exausto por causa do vôo, fui para a cama, acordando a cada hora como eu fazia quando estava na
base. Na hora que eu me levantei pela manhã, meu pai já tinha ido para o trabalho.
Comi e li o jornal, tentei falar com um amigo, sem sucesso, então peguei minha prancha de surfe na
garagem e fui à praia. As ondas não estavam ótimas, mas não importava. Eu não tinha estado numa
pracha havia três anos e estava meio enferrujado a princípio, mas até mesmo os menores dribles me
fizeram desejar que minha estação fosse perto do oceano. Era começo de junho de 2000, a
temperatura já estava quente e a água era refrescante. Do meu ponto de vantagem na minha
prancha, eu podia ver pais levando seus pertences a algumas das casas além das dunas. Como eu
mencionei, a praia de Wrightsville estava sempre lotada com famílias que alugavam por uma
semana ou mais, mas ocasionalmente estudantes universitários de Chapel Hill ou Raleigh faziam o
mesmo. Era o último grupo que me interessava, e eu notei um grupo de estudantes de biquínis
pegando seus lugares no deque de trás de uma das casas perto do píer. Fiquei as observando por um
momento, apreciando a vista, depois peguei outra onda e passei o resto da tarde perdido no meu
próprio mundinho.
Pensei em fazer uma visita ao Leroy's mas me dei conta de que nada nem ninguém tinha mudado
além de mim. Ao invés disso, peguei uma garrafa de cerveja da loja da esquina e fui sentar no píer
para aproveitar o pôr-do-sol. A maioria das pessoas pescando já tinham começado a ir embora e os
poucos que restavam estavam limpando sua captura e jogando os restos na água. Com o tempo, a
cor do oceano começou a mudar de cinza para laranja e depois amarelo. Nas barricadas além do píer
eu podia ver os pelicanos em cima de golfinhos enquanto esles surfavam pelas ondas. Eu sabia que
a tarde iria trazer a primeira noite de lua cheia-meu tempo no campo fez da realização quase
instintiva. Eu não estava pensando em muita coisa, só deixando minha mente vaguear. Acredite em
mim, conhecer uma garota era a última coisa que eu tinha em mente.
Foi quando eu a vi subindo o píer. Ou melhor, duas delas andando. Uma era alta e loira, a outra uma
morena atraente, as duas um pouco mais novas que eu. Estudantes universitárias, pareciam. As duas
vestiam shorts e blusas que deixavam os ombros à mostra, e a morena carregava uma daquelas
bolsas grandes de tricô que as pessoas às vezes trazem a praia quando planejam ficar por horas com
as crianças. Eu podia ouví-las conversando e rindo, soando despreocupadas e prontas para as férias,
quando elas se aproximaram.
"Hey," eu chamei quando elas estavam perto. Não muito suave, e eu não posso dizer que esperava
alguma coisa como resposta.
A loira provou que eu estava certo. Ela olhou pra minha prancha e pra garrafa de cerveja na minha
mão e me ignorou com um rolar de olhos. A morena, no entanto, me surpreendeu.
"Oi, estranho," ela respondeu com um sorriso. Ela gesticulou em direção a minha prancha. "Aposto
que as ondas foram ótimas hoje."
O comentário dela me pegou de baixa guarda, e eu ouvi uma bondade inesperada em suas palavras.
Ela e sua amiga continuaram descendo até o fim do píer, e eu me peguei a observando enquanto ela
se apoiava na grade. Eu debati se deveria ou não ir até ela e me apresentar, então decidi que não.
Elas não eram meu tipo, ou mais precisamente, eu não era o delas. Dei um longo gole na minha
cerveja, tentando ignorá-las.
Tentando como pudesse, no entanto, eu não conseguia impedir meu olhar de flutuar de volta para a
morena. Tentei não escutar o que as duas garotas falavam, mas a loira tinha uma daquelas vozes
impossíveis de ignorar.
Ela falava sem parar sobre algum cara chamado Brad e o quanto ela o amava, e como a fraternidade
dela era a melhor da UNC, e a festa que eles tiveram no fim do ano foi a melhor de todas, e que os
outros deveriam se juntar a eles no próximo ano, e que muitas das amigas dela estavam se
agarrando com o pior tipo de caras de fraternidade, e uma delas até ficou grávida, mas a culpa era
dela mesma visto que ela tinha sido alertada sobre o garoto. A morena não falava muito-eu não
sabia se ela estava entretida ou entediada com a conversa-mas de vez em quando, ela ria. De novo,
eu ouvi algo amigável e compreensivo na sua voz, alguma coisa semelhante a voltar pra casa, o que
eu admito, não fez nenhum sentido. Enquanto eu colocava de lado minha garrafa de cerveja, notei
que ela colocou a bolsa na grade.
Elas tinham ficado lá por dez minutos mais ou menos antes de dois caras começarem a subir o píercaras
de fraternidade, eu adivinhei-vestindo blusas rosa e laranja da Lacoste sobre seus shorts da
Bermuda. Meu primeiro pensamento foi que um daqueles dois devia ser o Brad sobre o qual a loira
falava. Os dois carregavam cervejas e ficavam mais furtivos enquanto se aproximavam, como se
pretendessem dar um susto nas garotas. Era mais que provável que as duas garotas queriam eles ali,
e depois de um rápido susto, completo com um grito e alguns tapas amigáveis no braço, eles iriam
voltar juntos, rindo e fazendo gozações ou o que quer que seja que casais universitários façam.
Tudo devia ter acontecido desse jeito, porque os garotos fizeram exatamente o que eu pensei que
eles fariam. Assim que eles chegaram perto, pularam nas garotas com um grito; as duas guincharam
e fizeram o negócio das tapinhas amigáveis. Os garotos piaram e o camisa rosa derramou um pouco
da sua cerveja. Ele se apoiou na grade, perto da bolsa e cruzou as pernas, com seus braços atrás
dele.
"Ei, nós vamos começar a fogueira em alguns minutos," o camisa laranja disse, colocando seus
braços em volta da loira. Ele beijou o percoço dela. "Vocês duas estão prontas para voltar?"
"Pronta?" a loira perguntou, olhando para a amiga.
"Claro," a morena respondeu.
O camisa rosa se desencostou da grade, mas de algum modo sua mão deve ter batido na bolsa,
porque ela escorregou, então caiu por cima da borda. O splash soou como se um peixe tivesse
pulado.
"O que foi isso?" ele perguntou, se virando.
"Minha bolsa!" a morena gritou. "Você derrubou."
"Desculpe," ele disse, não parecendo particularmente arrependido.
"Minha carteira estava lá!"
Ele franziu o cenho. "Eu pedi desculpas."
"Você tem que ir pegar antes que afunde!"
Os caras da fraternidade pareciam congelados, e eu sabia que nenhum dos dois tinha a intenção de
pular na água e pegar a bolsa. Pra começar, eles provavelmente nunca iriam achá-la, e depois teriam
que nadar até a areia, algo que não era recomendado se alguém tivesse bebido, o que eles
obviamente tiham feito. Eu acho que a morena também leu a expressão do camisa rosa, porque eu
vi ela colocando as duas mãos e um pé na grade. "Não seja boba. Já era," o camisa rosa declarou,
colocando a sua mão nas dela para pará-la. "É muito perigoso para pular. Dever ter tubarões lá
embaixo. É só uma carteira. Eu compro uma nova pra você."
"Eu preciso daquela carteira! Todo o meu dinheiro está lá!"
Não era da minha conta, eu sei. Mas tudo o que eu podia pensar enquanto me punha de pé e corria
para a beira do píer era, Ah, que se dane...
Capitulo 2 >>
Eu acho que deveria explicar porque pulei em direção as ondas para recuperar a bolsa dela. Não foi
porque pensei que ela iria me ver como algum tipo de herói, ou porque queria impressioná-la, ou
nem mesmo porque eu me importava com quanto dinheiro ela iria perder. Teve a ver com a
sinceridade do sorriso dela e pela amabilidade da sua risada. Até mesmo quando eu estava me
atirando em direção a água, sabia o quão ridícula minha reação tinha sido, mas aí era muito tarde.
Eu mergulhei, nadei pra baixo e emergi. Quatro rostos olhavam pra mim da grade. O camisa rosa
estava definitivamente irritado.
"Onde está?" Eu gritei pra eles.
"Bem ali!" a morena gritou. "Acho que ainda consigo ver. Está descendo..."
Eu levei um minuto para localizá-la no crepúsculo que escurecia e o ritmo do oceano estava fazendo
o que podia para me jogar contra o píer. Nadei para o lado, então segurei a bolsa fora da água do
melhor jeito que pude, apesar do fato de que ela já estava ensopada. As ondas fizeram com que o
nado de volta a costa fosse menos difícil do que eu temia, e de vez em quando eu olhava pra cima e
via as quatro pessoas me seguindo.
Finalmente senti o raso e me arrastei pra fora das ondas. Sacudi a água do meu cabelo, comecei a
andar na areia e encontrei com eles no meio da praia. Estendi a bolsa.
"Aqui está."
"Obrigada," a morena disse, e quando os seus olhos encontraram os meus eu senti um click, como
uma chave virando em uma fechadura. Acredite em mim, não sou romântico, e enquanto ouvia tudo
sobre amor à primeira vista, nunca acreditei, e ainda não acredito. Mas mesmo assim, havia algo ali,
algo reconhecidamente real, e eu não consegui desviar o olhar.
De perto ela era mais linda do que eu tinha me dado conta, mas tinha menos a ver com o que ela
aparentava do que com o que ela era. Não era só o seu sorriso com uma brecha nos dentes da frente,
era o jeito casual com que ela mechia em uma mexa de cabelo, o modo fácil com que ela abraçava a
si mesma.
"Você não precisava ter feito isso," ela disse com alguma coisa maravilhada em sua voz. "Eu teria
pego."
"Eu sei." eu afirmei. "Eu te vi se preparando para pular."
Ela inclinou a cabeça. "Mas você sentiu uma necessidade incontrolável de ajudar uma dama em
perigo?"
"Algo assim."
Ela avaliou minha resposta por um momento, então voltou sua atenção para a bolsa. Começou a
remover itens-carteira, óculos de sol, viseira, protetor solar-e estendeu tudo para a loira antes de
espremer a bolsa.
"Suas fotos molharam," a loira disse, olhando a carteira.
A morena a ignorou, continuando a espremer de um lado e depois do outro. Quando ela finalmente
estava satisfeita, pegou de volta os objetos e encheu a bolsa novamente.
"Obrigada de novo," ela disse. Seu sotaque era diferente daquele do leste da Carolina do Norte,
mais nasalado, como se ela tivesse crescido nas montanhas ou perto de Boone, ou perto da fronteira
da Carolina do Sul a oeste.
"Não foi grande coisa," eu murmurei, mas não me mexi.
"Ei, talvez ele queira uma recompensa," camisa rosa falou, com a voz alta.
Ela olhou pra ele e depois pra mim. "Você quer uma recompensa?"
"Não." Balancei uma mão. "Fico feliz em ajudar."
"Eu sempre soube que o cavalheirismo não estava morto," ela proclamou. Tentei captar uma nota de
provocação, mas não ouvi nada no seu tom que indicasse que ela estava zombando de mim.
Camisa laranja me olhou de cima a baixo, notando o meu crew-cut . "Você é da marinha?"
perguntou. Ele apertou seus braços ao redor da loira de novo.
Balancei a cabeça. "Eu não sou um dos poucos ou o orgulho. Eu queria ser tudo que podia, então
me juntei ao exército."
A morena riu. Diferente do meu pai, ela tinha na verdade visto os comerciais.
"Meu nome é Savannah," disse. "Savannah Lynn Curtis. E estes são Brad, Randy e Susan." Ela
estendeu a mão.
"Sou John Tyree," eu disse, apertando a mão dela. Sua mão era quente, macia como veludo em
alguns lugares, mas calejada em outros. Imediatamente tive consciência de quanto tempo fazia que
eu tinha tocado uma mulher.
"Bem, eu sinto como se devesse fazer algo por você."
"Você não precisa fazer nada."
"Você já comeu?" ela perguntou, ignorando meu comentário. "Estamos nos preparando para um
churrasco, e tem muita comida. Gostaria de se juntar a nós?"
Os garotos trocaram olhares. Randy de camisa rosa parecia desapontado e eu admito que isso me
fez sentir melhor. Ei, talvez ele queira uma recompensa . Que idiota.
"É, vamos," Brad finalmente apoiou, soando menos que animado. "Vai ser divertido. Nós alugamos
a casa perto do píer." Ele apontou para uma das casas na praia onde meia dúzia de pessoas
preguiçavam no deque.
Mesmo que eu não tivesse nenhum desejo de passar mais tempo com mais irmãos de fraternidade,
Savannah sorriu pra mim com tanta amabilidade que as palavras saíram antes que eu pudesse parálas.
"Parece legal. Deixa só eu pegar minha prancha lá no píer e logo estarei lá."
"Encontramos você lá," Randy falou. Deu um passo em direção a Savannah, mas ela o ignorou.
"Eu acompanho você," Savannah disse, se afastando do grupo, "É o mínimo que eu posso fazer."
Ela ajeitou a bolsa no ombro. "Vejo vocês daqui a pouco, ok?"
Começamos a andar em direção a duna, onde as escadas nos levariam ao píer. Seus amigos se
demoraram um pouco, mas quando ela chegou ao meu lado, eles se viraram lentamente e
começaram a andar pela praia. Do canto do olho, vi a loira virar a cabeça e nos olhar por entre os
braços de Brad. Randy também olhou, emburrado. Eu não estava certo que Savannah tinha notado
até nos andarmos alguns passos.
"Susan provavelmente pensa que eu sou louca por fazer isso," ela disse.
"Fazer o que?"
"Andar com você. Ela acha que Randy é perfeito pra mim, e vem tentando fazer com que a gente
fique junto desde que chegamos aqui essa tarde. Ele tem me seguido o dia todo."
Balancei a cabeça, sem saber como responder. À distância, a lua, cheia e brilhante, tinha começado
sua subida vagarosa do mar, e eu vi Savannah olhando pra ela. Quando as ondas arrebentavam e
transbordavam, brilhavam prateadas, como se tivessem sido pegas pelo flash de uma câmera.
Chegamos ao píer. A grade estava cheia de areia e sal e a madeira estava danificada pela maresia e
começava a se despedaçar. Os degraus rangiram enquanto subíamos.
"Onde é a sua estação?" ela perguntou.
"Na Alemanha. Estou em casa de licença por algumas semanas para visitar meu pai. E você é das
montanhas, eu presumo?"
Ela me olhou surpresa. "Lenoir." Ela me analizou. "Deixa eu adivinhar, meu sotaque, certo? Você
acha que eu falo como se fosse do interior, não é?"
"De jeito nenhum."
"Bem, eu sou. Do interior, quero dizer. Cresci numa fazenda e tudo. E sim, eu sei que tenho um
sotaque, mas me disseram que algumas pessoas acham charmoso."
"Randy parecia achar que sim."
Saiu antes que eu pudesse me segurar. No estranho silêncio, ela passou uma mão sobre os cabelos.
"Randy parece ser um jovem legal," ela comentou depois de um tempo, "mas eu não conheço ele
tão bem. Não conheço realmente a maioria das pessoas da casa, tirando Tim e Susan." Ela espantou
um mosquito. "Você vai encontrar o Tim mais tarde. Ele é um cara ótimo. Você vai gostar dele.
Todo mundo gosta."
"E você realmente está aqui de férias por uma semana?"
"Um mês, na verdade-mas não, não são realmente férias. Nós somos voluntários. Você ouviu falar
do Habitat para a Humanidade, certo? Nós estamos aqui para ajudar a construir algumas casas.
Minha família está envolviada nisso há anos."
Por cima de seus ombros a casa parecia se tornar viva no escuro. Mais pessoas tinham se
materializado, o volume da música tinha aumentado, e de vez em quando eu podia ouvir uma
risada. Brad, Susan e Randy já estavam rodeados por um grupo de jovens bebendo cerveja e
parecendo querer mais diversão e a chance de se agarrar com alguém do sexo oposto do que fazer
uma boa ação. Ela deve ter notado a minha expressão e seguido o meu olhar.
"Nós só começamos segunda. Eles vão logo descobrir que não se trata só de diversão e jogos."
"Eu não disse nada..."
"Não precisou. Mas você está certo. Pra maioria deles é a primeira vez que trabalham com a
Habitat, e só estão fazendo pra que tenham alguma coisa diferente para colocar no seu currículo
quando se formarem. Não têm idéia de quanto trabalho está envolvido. Mas, no fim, o que importa
é que as casas sejam construídas, e elas serão. Elas sempre são."
"Você já fez isso antes?"
"Todos os verões desde que eu fiz dezesseis anos. Costumava fazer com a nossa igreja, mas quando
fui para Chapel Hill, começamos um grupo lá. Bem, na verdade, o Tim começou. Ele também é de
Lenoir. Acabou de se formar e vai começar o mestrado esse outono. Conheço ele desde sempre. Ao
invés de passar o verão trabalhando em empregos estranhos em casa ou fazendo estágios, achamos
que porderíamos oferecer aos estudandtes uma chance de fazer a diferença. Todo mundo racha o
dinheiro da casa e paga as próprias despesas pelo mês, e não cobramos nada pelo trabalho que
fazemos nas casas. Era por isso que era tão importante eu pegar minha bolsa de volta. Não poderia
comer durante todo o mês."
"Tenho certeza que eles não deixariam você morrer de fome."
"Eu sei, mas não seria justo. Eles já estão fazendo algo que vale a pena, e isso é mais que o
bastante."
Eu podia sentir meu pés escorregando na areia.
"Por que Wilmington?" Eu perguntei. "Quero dizer, por que vir aqui construir casas ao invés de
algum lugar como Lenoir ou Raleigh?"
"Por causa da praia. Você sabe como as pessoas são. É muito difícil conseguir que elas cedam seu
tempo por um mês, mas é mais fácil se for em um lugar como este. E quanto mais pessoas você
tiver, mais você pode fazer. Trinta pessoas se inscreveram esse ano."
Eu assenti, consciente de quão perto um do outro nós caminhávamos. "E você também de formou?"
"Não, vou fazer o último ano. E vou me especializar em educação especial, se essa era a sua
próxima pergunta."
"Era."
"Eu previ. Quando se está na univesidade, é isso que todo mundo te pergunta."
"Todo mundo me pergunta se eu gosto de estar no exército."
"Você gosta?"
"Não sei."
Ela riu, e o som foi tão musical que eu sabia que queria ouví-lo novamente.
Alcançamos o fim do píer e eu peguei minha prancha. Joguei a garrafa vazia de cerveja na lixeira,
ouvindo-a se chocar com o fundo. As estrelas vinham à tona acima das nossas cabeças, e as luzes
das casas alinhadas ao longo das dunas me lembraram luminosas abóboras de Halloween.
"Você se importa se eu perguntar o que te levou a se juntar ao exército? Levando em conta que você
não sabe se gosta, quero dizer."
Me levou um segundo pra descobrir como responder àquilo, e eu mudei a prancha de surf pra o
outro braço. "Acho que o mais seguro é dizer que, naquele tempo, eu precisei entrar."
Ela esperou eu falar mais, mas quando eu não falei, simplesmente assentiu.
"Aposto que você está contente de estar de volta em casa por um tempo," ela disse.
"Sem dúvida."
"Aposto que seu pai está contente também, não é?"
"Acho que sim."
"Ele está. Tenho certeza de que tem muito orgulho de você."
"Espero que sim."
"Você fala como se não tivesse certeza."
"Você teria que encontrar meu pai para entender. Ele não é muito falante."
Eu podia ver a luz da lua refletida em seus olhos escuros, e sua voz era macia quando ela falou. "Ele
não precisa falar para ter orgulho de você. Ele deve ser o tipo de pai que demonstra isso de outras
maneiras."
Pensei sobre isso, esperando que fosse verdade. Enquanto considerava, ouvimos um grito alto vindo
da casa e eu avistei algumas garotas perto do fogo. Um dos caras tinha os braços ao redor de uma
garota e a empurrava pra frente; ela ria e lutava contra ele. Brad e Susan estavam agarrados ali
perto, mas Randy tinha sumido.
"Você disse que não conhece a maioria das pessoas com as quais vai morar?"
Ela balançou a cabeça, seus cabelos varrendo seus ombros. Ajeitou outra mecha. "Não tão bem. Nós
encontramos a maioria deles pela primeira vez na inscrição, e depois hoje quando chegamos aqui.
Quero dizer, podemos ter nos visto pelo campus uma vez ou outra e eu acho que muitos deles já se
conehcem, mas eu não. A maioria está em fraternidades. Eu ainda vivo em um dormitório. Mas eles
são um bom grupo."
Enquanto ela respondia, tive a sensação de que era o tipo de pessoa que nunca diria uma coisa ruim
sobre ninguém. Sua consideração com os outros me ocorreu como refrescante e madura, e ainda,
estranhamente, eu não estava surpreso. Era parte daquela qualidade indefinida que eu tinha sentido
nela desde o começo, um comportamento que a diferenciava.
"Quantos anos você tem?" eu perguntei enquanto nos aproximávamos da casa.
"Vinte e um. Fiz aniversário no mês passado. E você?"
"Vinte e três. Você tem irmãos ou irmãs?"
"Não. Sou filha única. Só eu e meus pais. Eles ainda vivem em Lenoir, e ainda estão felizes depois
de vinte e cinco anos. Sua vez."
"O mesmo. A não ser por mim, sempre fomos só eu e meu pai." Eu sabia que minha resposta levaria
a uma pergunta seguinte sobre o status da minha mãe, mas para a minha surpresa, ela não veio. Em
vez disso, ela perguntou, "Foi ele que lhe ensinou a surfar?"
"Não, isso eu aprendi sozinho quando era criança."
"Você é bom. Estava te observando mais cedo. Faz parecer tão fácil. Me faz querer saber como
surfar."
"Ficaria feliz em te ensinar se você quiser aprender," me ofereci. "Não é tão difícil. Vou estar aqui
amanhã."
Ela parou e fixou seu olhar em mim. "Agora, não faça ofertas que você não está certo se pretende
manter." Ela estendeu a mão para o meu braço, me deixando sem fala, então indicou a fogueira.
"Está pronto para conhecer algumas pessoas?"
Eu engoli, sentindo um secura repentina na minha garganta, o que foi siplesmente a coisa mais
estranha que já aconteceu comigo.
A casa era um daqueles monstros de três andares com uma garagem no térreo e provavelmente seis
ou sete quartos. Um deque imenso circulava o andar principal; toalhas estavam estendidas nas
grades, e eu podia ouvir o som de múltiplas conversas vindo de todas as direções. Havia uma
churrasqueira no deque eu eu podia sentir o cheiro de cachorro-quente e frango cozinhando; o cara
que estava debruçado em cima da churrasqueira estava sem camisa e vestia uma touca, tentando
parecer um urbano legal. Não estava funcionando, mas isso me fez rir.
Na areia em frente, a fogueira estava em um fosso, com várias garotas vestindo blusões de moletom
maiores que elas sentadas ao redor, todas fingindo não estarem conscientes dos garotos ao redor
delas. Enquanto isso, os garotos estavam em pé além delas, parecendo estar tentando posar de um
modo que acentuasse o tamanho de seus braços ou esculpisse seus abdômens e agindo como se não
notassem as garotas nem um pouco. Eu já tinha visto isso no Leroy's; cultas ou não, crianças ainda
eram crianças. Eles estavam no começo dos vinte, e a luxúria estava no ar. Jogados na praia e na
cerveja, e eu podia adivinhar o que aconteceria depois; mas eu já teria ido embora há muito tempo
até lá.
Quando Savannah e eu chegamos mais perto, ela diminuiu o passo antes de apontar. "Que tal ali, ao
lado da duna?" ela sugeriu.
"Claro."
Pegamos um lugar de frente para o fogo. Algumas outras garotas olharam, checando o cara novo,
antes de se recolherem em suas conversas. Randy finalmente andou em direção ao fogo com uma
cerveja, viu SAvannah e eu e rapidamente nos deu as costas, seguindo o exemplo das garotas.
"Frango ou cachorro-quente?" ela perguntou, parecendo indiferente a tudo isso.
"Frango."
"O que você quer beber?"
A luz do fogo fez do seu olhar quase misterioso. "Qualquer coisa que você for beber está bom.
Obrigado."
"Volto logo."
Ela foi em direção aos degraus, e eu me forcei a não seguí-la. Ao invés disso, caminhei em direção
ao fogo, tirei minha camisa e a coloquei em uma cadeira vazia, depois voltei para o meu lugar.
Olhando pra cima, eu vi o touca paquerando Savannah, senti uma onda de tensão, então me virei
para ter um controle melhor das coisas. Eu sabia pouco sobre ela e sabia menos ainda dobre o que
ela pensou de mim. Além disso, eu não tinha nenhum desejo de começar alguma coisa que não
poderia terminar. Iria embora em algumas semanas e nada disso ia chegar a alguma coisa; falei tudo
isso pra mim mesmo, e acho que parcialmente me convenci de que iria pra casa assim que
terminasse de comer, quando meus pensamentos foram interrompidos pelo som de alguém se
aproximando. Alto e magro, com cabelo escuro que já estava habilmente partido para o lado, ele me
lembrou daqueles caras que você conhece de tempos em tempos que parecem estar na meia-idade
desde que nasceram.
"Você deve ser o John," ele disse com um sorriso, agachando na minha frente. "Meu nome é Tim
Wheddon." Ele estendeu a mão. "Ouvi falar do que você fez por Savannah-sei que ela estava grata
por você estar lá."
Apertei sua mão. "Prazer em conhecê-lo."
Apesar da minha cautela inicial, seu sorriso foi mais veradeiro do que os de Brad e Randy tinham
sido. Ele nem mencionou minhas tatuagens, o que é incomum. Acho que devo mencionar que elas
não eram exatamente pequenas e cobriam a maior parte dos meus braços. As pessoas já me
disseram que vou me arrepender quando for mais velho, mas quando as fiz, eu realmente não me
importava. E ainda não me importo.
"Se importa se eu sentar aqui?" ele perguntou.
"À vontade."
Ele se sentou confortavelmente, nem em cima de mim nem muito longe. "Fico feliz que você possa
ter vindo. Quero dizer, não é muito, mas a comida é boa. Está com fome?"
"Na verdade, estou faminto."
"O surf faz isso com você."
"Você surfa?"
"Não, mas passar algum tempo no mar sempre me dá fome. Lembro disso das minhas férias quando
criança. Nós costumávamos ir a Pine Knoll Shores todo verão. Você já esteve lá?"
"Só uma vez. Tenho tudo de que preciso aqui."
"É, acho que você tem." Ele acenou para a minha prancha. "Você gosta das pranchas longas, né?"
"Gosto das duas, mas as ondas daqui são melhores com as longas. Você precisa surfar no Pacífico
para realmente aproveitar uma prancha pequena."
"Você já esteve lá? Havaí, Bali, Nova Zelândia, lugares assim? Eu li que eles são o ultimato."
"Ainda não," eu disse, surpreso que ele sabia sobre eles. "Uma dia, talvez."
Um pedaço de lenha estalou, mandando pequenas faíscas para o céu. Juntei minhas mãos, sabendo
que era a minha vez. "Ouvi dizer que você está aqui para construir algumas casas para os pobres."
"Foi Savannah que lhe disse? É, esse é o plano, de qualquer forma. Elas são para algumas famílias
realmente merecedoras, e com sorte, elas estarão em suas próprias casas no fim de julho."
"É uma boa coisa o que você está fazendo."
"Não sou só eu. Mas eu queria te perguntar uma coisa."
"Deixe-me adivinhar, você quer que eu seja voluntário?"
Ele riu. "Não, nada disso. Embora seja engraçado-eu já ouvi isso antes. As pessoas me vêem vindo e
geralmente elas correm pro outro lado. Acho que sou muito fácil de entender. De qualquer forma,
sei que é um chute de muito longe, mas eu estava me perguntando se você conhece meu primo. A
estação dele é em Fort Bragg."
"Sinto muito," eu disse. "Meu posto é na Alemanha."
"No Ramstein?"
"Não. Essa é a base da força aérea. Mas eu estou relativamente perto. Por que?"
"Eu estava em Frankfurt dezembro passado. Passei o natal lá com a minha família. É de onde nós
somos originalmente, e meus avós ainda vivem lá."
"Mundo pequeno."
"Você aprendeu alguma coisa em alemão?"
"Nada."
"Nem eu. A pior parte é que meus pais são fluentes e eu tenho ouvido alemão em casa por anos, e
até tive aulas antes de ir. Mas não entendia, sabe? Acho que fui sortudo de passar nas aulas, e tudo o
que eu podia fazer era balançar a cabeça na mesa do jantar e fingir que entendia o que todo mundo
dizia. A única coisa boa era que meu irmão estava no mesmo barco, então podíamos nos sentir
como idiotas juntos."
Eu ri. Ele tinha um rosto aberto, honesto e sem querer, eu gostei dele.
"Ei, posso pegar alguma coisa pra você?" ele perguntou.
"Savannah está tomando conta disso."
"Eu devia ter adivinhado. Anfitriã perfeita e tudo isso. Sempre foi."
"Ela disse que vocês dois cresceram juntos."
Ele assentiu. "A fazenda da família dela é logo ao lado da minha. Nós fomos as mesmas escolas e
frequentamos a mesma igreja por anos, e depois nós estávamos na mesma universidade. Ela é tipo
minha irmã caçula. Ela é especial."
Apesar do comentário sobre a 'irmã', eu tive a impressão pelo modo como ele falou "especial" que
seus sentimentos eram um pouco mais profundos do que ele deixava transparecer. Mas diferente de
Randy, ele não pareceu com ciúmes sobre o fato de que ela tinha me convidado pra vir aqui. Antes
que eu pudesse deixar minha imaginação vagar sobre isso, Savannah apareceu nas escadas e desceu
para a areia.
"Vejo que você conheceu o Tim," ela disse. Em uma mão estavam dois pratos com frango, salada de
batata e batatas fritas; na outra, duas latas de Pepsi Diet.
"É, eu só quis aparecer e agradecer pelo que ele fez," Tim explicou, "então decidi entediá-lo com
estórias de família."
"Bom. Eu estava esperando que vocês dois tivessem uma chance de se encontrar."
Ela ergueu suas mãos; como Tim, ela ignorou o fato de que eu estava sem camisa. "A comida está
pronta. Você quer meu prato, Tim? Eu posso ir lá e pegar outro."
"Não, eu vou pegar," Tim disse, se levantando. "Mas obrigado. Vou deixar vocês dois atacarem."
Ele sacudiu a areia dos shorts. "Ei, foi bom te conhecer, John. Se estiver na área amanhã, ou outro
dia, você é sempre bem-vindo."
"Obrigado. Foi bom te conhecer também."
Um tempo depois, Tim estava subindo as escadas. Ele não olhou pra trás, apenas soltou um
amigável olá para alguém vindo na direção oposta, depois seguiu o resto do caminho. Savannah me
estendeu o prato e alguns utensílios plásticos, trocou de mãos e me ofereceu um refrigerante, então
sentou ao meu lado. Perto, eu notei, mas não tão perto para tocar. Ela apoiou o prato no colo,
estendeu a mão para a lata antes de hesitar. Ela segurou a lata.
"Você estava bebendo cerveja mais cedo, mas disse pra pegar o que eu fosse pegar pra mim
também, então eu te trouxe um desses. Eu não estava certa do que você queria."
"O refrigerante tá bom."
"Tem certeza? Tem muita cerveja nos freezers e eu já ouvi falar de vocês, caras do exército."
Eu bufei. "Tenho certeza," disse, abrindo minha lata. "Presumo que você não beba."
"Não," ela disse. Nada de defensivo ou presunçoso em seu tom, eu notei, só a verdade. Gostei disso.
Ela mordeu um pedaço do frango. Eu fiz o mesmo, e no silêncio me perguntei sobre ela e Tim e se
ela sabia de como ele realmente se sentia em relação a ela. E me perguntei como ela se sentia em
relação a ele. Havia algo ali, mas eu não conseguia descobrir o quê, a menos que Tim estivesse
certo e fosse um negócio do tipo irmão. Eu de alguma forma duvidava que esse fosse o caso.
"O que você faz no exército?" ela perguntou, finalmente pousando o garfo.
"Sou sargento na infantaria. Esquadrão de armas."
"Como é? QUero dizer, o que você faz todo dia? Você atira, explode coisas ou o que?"
"Às vezes. Mas, na verdade, é bem entediante na maioria do tempo, pelo menos quando estamos na
base. Nos reunimos de manhã, geralmente por volta das seis, nos certificamos que todos estão lá,
então nos dividimos em batalhões para nos exercitarmos. Basquete, corrida, levantamento de peso,
o que for. Às vezes tem aula naquele dia, qualquer coisa sobre montar e montar de novo nossas
armas, ou uma aula de terreno noturno, ou nós vamos treinar tiros com fuzis, ou qualquer coisa. Se
nada estiver planejado nós só voltamos pro quartel e jogamos videogames, lemos, malhamos de
novo ou qualquer coisa pelo resto do dia. Depois nos reunimos de novo às quatro horas e
resolvemos o que faremos no outro dia. Então acabamos."
"Videogames?"
"Eu malho e leio. Mas meus colegas são especialistas nos jogos. E quanto mais violento o jogo for,
mais eles gostam."
"O que você lê?"
Eu disse a ela, e ela levou em consideração. "E o que acontece quando você é mandado a uma zona
de guerra?"
"Então," eu disse, acabando meu frango, "é diferente. Há dever de guarda, e as coisas estão sempre
quebrando e precisam ser consertadas, então você fica ocupado, mesmo que não esteja fora em
patrulha. Mas a infataria são as forças que ficam no chão, então nós passamos uma grande parte do
nosso tempo longe do campo."
"Você nunca fica com medo?"
Procurei pela resposta certa. "Sim. Às vezes. Não é como se você andasse por aí aterrorizado o
tempo todo, mesmo quando as coisas estão um inferno ao seu redor. É só que você está... reagindo,
tentando ficar vivo. As coisas acontecem tão rápido que você não tem tempo para pensar em muito
coisa a não ser fazer o seu trabalho e tentar não morrer. Geralmente te afeta mais tarde, quando você
está mais tranquilo. É aí que você se dá conta o quão perto esteve, e às vezes você tem tremedeiras e
vomita ou qualquer coisa."
"Não tenho certeza se conseguiria fazer o que você faz."
Não tenho certeza se ela esperava uma resposta pra isso, então eu mudei de assunto. "Por que
educação especial?" perguntei.
"É uma longa estória. Tem certeza de que quer escutar?" Quando eu assenti, ela deu um longo
suspiro.
"Tem esse garoto em Lenoir chamado Alan, e eu conheço ele por toda a minha vida. Ele é autista e
por um bom tempo ninguém sabia o que fazer com ele ou como chegar a ele. Isso me pegou, sabe?
Eu me sentia tão mal por ele, até mesmo quando era pequena. Quando perguntei aos meus pais
sobre ele, eles disseram que talvez o Senhor tinha planos especiais pra ele. Não fez nenhum sentido
no começo, mas Alan tinha um irmão mais velho que era tão paciente com ele o tempo inteiro.
Quero dizer, sempre. Ele nunca se frustrou com ele, e pouco a pouco, ele ajudou Alan. Alan não é
perfeito de maneira alguma-ele ainda vive com os pais, e nunca vai poder ficar sozinho-mas ele não
é tão perdido como era quando novo, e eu decidi que quero ser capaz de ajudar crianças como
Alan."
"Quantos anos você tinha quando decidiu isso?"
"Doze."
"E você quer trabalhar com eles em uma escola?"
"Não," ela disse. "Eu quero fazer o que o irmão do Alan fez. Ele usou cavalos." Ela pausou,
juntando os pensamentos. "Com crianças autistas... é como se elas estivessem trancadas no seu
próprio mundinho, então geralmente a escola e a terapia são baseadas na rotina. Mas eu quero
mostrá-los esperiências que podem abrir novas portas a eles. Eu já vi acontecer. Quero dizer, Alan
estava aterrorizado com os cavalos de início, mas seu irmão continuou tentando, e depois de um
tempo, Alan chegou ao ponto em que podia dar tapinhas neles, afagar seus fucinhos, e mais tarde
alimentá-los. Depois disso ele começou a montar, e eu lembro de olhar para seu rosto a primeira vez
que ele subiu... foi tão incrível, sabe? Quero dizer, ele estava sorrindo, tão feliz como uma criança
pode ser. E é isso que eu quero que essas crianças experienciem. Simplesmente... felicidade, mesmo
que seja por um pequeno tempo. Foi aí que eu soube exatamente o que queria fazer com a minha
vida. Talvez abrir um campo de montaria para crianças autistas, onde nós podemos realmente
trabalhar com elas. Então talvez elas possam sentir a mesma felicidade que o Alan sentiu."
Ela pousou seu garfo como se estivesse envergonhada, então deixou o prato ao seu lado.
"Isso parece maravilhoso."
"Vamos ver se acontece," ela disse, sentando de novo. "É só um sonho por enquanto."
"Presumo que você goste de cavalos também?"
"Toda garota gosta de cavalos. Você não sabia disso? Mas sim, eu gosto. Tenho um Arabian
chamado Midas, e às vezes me mata que eu esteja aqui quando eu poderia estar montando ele."
"A verdade vem à tona."
"Como deveria. Mas ainda planejo ficar aqui. Vou montar o dia todo, todos os dias quando voltar.
Você monta?"
"Montei uma vez."
"Você gostou?"
"Estava dolorido no dia seguinte. Andar doía."
Ela gargalhou e eu me dei conta que gostava de conversar com ela. Era fácil e natural, diferente de
tantas pessoas. Acima de mim, eu podia ver o cinturão de Órion; logo além do horizonte na água,
Vênus tinha aparecido e brilhava em um branco pesado. Garotos e garotas continuavam a correr
escada acima e abaixo, paquerando com a coragem proporcionada pela bebida. Eu suspirei.
"Eu acho devo ir andando pra ficar com meu pai um pouco. Ele provavelmente está se perguntando
onde eu estou. Isso se ele ainda estiver acordado."
"Você quer ligar pra ele? Pode usar o telefone."
"Não, acho que vou indo. É uma longa caminhada."
"Você não tem carro?"
"Não. Peguei uma carona de manhã."
"Quer que Tim te leve em casa? Tenho certeza que ele não se importaria."
"Não, tudo bem."
"Não seja ridículo. Você disse que era uma longa caminhada, certo? Vou pedir ao Tim para te levar.
Vou chamá-lo."
Ela correu antes que eu pudesse impedí-la, e um minuto depois Tim a seguia para fora da casa.
"Tim fica feliz em te levar," ela disse, parecendo muito contente consigo mesma.
Eu me virei para Tim. "Tem certeza?"
"Nenhuma problema," ele me assegurou. "Minha caminhonete está lá na frente. Você pode colocar
sua prancha atrás." Ele indicou a prancha com a mão. "Precisa de ajuda?"
"Não," eu disse, me levantando, "pode deixar." Eu fui até a cadeira e vesti a camisa, depois peguei a
prancha. "Obrigada, a propósito."
"O prazer é meu," ele disse. Bateu nos bolsos. "Volto em um segundo com as chaves. É a
caminhonete verde estacionada na grama. Te encontro lá na frente."
Quando ele se foi, eu me virei para Savannah. "Foi bom te conhecer."
Ela sustentou meu olhar. "Você também. Nunca tinha conversado com um soldado antes. Me senti
meio que... protegida. Não acho que Randy me dará nenhum problema esta noite. Suas tatuagens
provavelmente assustaram ele."
Achei que ela tinha notado. "Talvez te veja por aí."
"Você sabe onde eu estarei."
Eu não tinha certeza se isso significava que ela queria que eu viesse visitá-la de novo ou não. De
muitas formas, ela permanecia um completo mistério para mim. Então novamente, eu mal a
conhecia.
"Mas estou um pouco desapontada que você esqueceu," ela adicionou, quase como um segundo
pensamento.
"Esqueci o que?"
"Você não disse que ia me ensinar a surfar?"
Se Tim teve alguma suspeita do efeito que Savannah tinha em mim ou que eu estaria visitando de
novo no dia seguinte, ele não deu nenhuma indicação. Em vez disso se concentrou em dirigir, se
certificando de que estava indo na direção certa. Ela era o tipo de motorista que parava o carro
mesmo que a luz estivesse amarela e ele pudesse ter passado.
"Espero que você tenha se divertido," ele disse. "Eu sei que é sempre estranho quando você não
conhece ninguém."
"Eu me diverti."
"Você e Savannah realmente se deram bem. Ela é uma coisa, não é? Acho que gostou de você."
"Tivemos uma boa conversa," eu disse.
"Fico feliz. Estava um pouco preocupado sobre ela vir aqui. Ano passado os pais dela estavam
conosco, então essa é a primeira vez que ela está por conta própria assim. Sei que é uma grande
garota, mas esse não é o tipo de pessoa que ela geralmente convive, e a última coisa que eu queria
era que ela ficasse se defendendo de garotos a noite toda."
"Tenho certeza que ela aguentaria."
"Você provavelmente está certo. Mas eu tenho a sensação que alguns desses garotos são muito
persistentes."
"É claro que eles são. Eles são garotos."
Ele riu. "Acho que você está certo." Ele indicou a janela. "Pra onde agora?"
O direcionei através de uma série de viradas, então finalmente disse para diminuir a velocidade do
carro. Ele parou em frente a casa, onde eu podia ver a luz da toca do meu pai, brilhando amarela.
"Obrigada pela carona," eu disse, abrindo a porta.
"Sem problemas." Ele se debruçou sobre o assento. "E escute, como eu disse, sinta-se livre para
aparecer na casa a qualquer hora. Nós trabalhamos durante a semana, mas finais de semana e noites
geralmente são folgas."
"Vou manter isso em mente," eu prometi.
Uma vez dentro de casa, fui à toca do meu pai e abri a porta. Ele estava fitando o Greysheet e deu
um pulo. Me dei conta de que ele não tinha me ouvido entrar.
"Desculpe," eu disse, me sentando no único degrau que separava a toca do resto da casa. "Não quis
assustá-lo."
"Tudo bem," foi tudo o que ele disse. Debateu se colocaria o Greysheet de lado, então colocou.
"As ondas estavam ótimas hoje," eu comentei. "Tinha quase esquecido o quanto a água é
fantástica."
Ele sorriu mas não disse nada. Mudei ligeiramente de posição no degrau. "Como foi o trabalho?"
perguntei.
"O mesmo," ele disse.
Mergulhou novamente em seus próprios pensamentos e tudo em que eu podia pensar era que a
mesma coisa poderia ser dita de nossas conversas.
